domingo, 25 de julho de 2010

Repita Comigo

Nelson Rodrigues dizia que a repetição é a melhor figura de retórica. O mestre achava que todo sujeito inteligente devia ter “no mínimo 5 idéias fixas”. Mas o nosso maior poeta dramático podia dizer o que quisesse. Quer dizer, pode agora através da sua obra eternizada. No seu tempo não houve ninguém mais polêmico e criticado do que Nelson Rodrigues. Um cara que escreveu milhares de contos geniais repetindo o mesmo assunto: a traição. Suas verdades afiadas não perdoavam o coração de uma sociedade hipócrita. Agora eu, esse pobre escritor de uns poucos leitores, insisto em repetir que a repetição é mesmo a alma do grande artista, cientista, arquiteto ou advogado. Só os idiotas conseguem ser inéditos todos os dias. A burrice sempre nos surpreende com coisas novas. Nada mais original do que a ignorância que se aprimora a cada dia. Enquanto “Romeu e Julieta” já foi encenada mais de um milhão de vezes, as peças medíocres ficam pouquíssimo tempo em cartaz, pois logo precisam ser substituídas por outras mais medíocres ainda. O sucesso é repetitivo, o fracasso não. Zico treinava 200 faltas por dia(o que é o treino senão uma repetição?) e por isso batia faltas como ninguém. Rogério Ceni faz o mesmo hoje em dia. Oscar ficava horas e horas arremessando bolas. A fé também é repetitiva, pois rezamos sempre as mesmas orações para um mesmo Deus. O sol nasce todo dia e os dias têm sempre 24 horas. Sei que isso soa repetitivo, mas paciência. O segredo das piores e das melhores coisas do mundo está na repetição. Madre Teresa de Calcutá repetiu boas ações durante toda a sua vida. Hitler usava a repetição para convencer o povo alemão a acreditar nas suas idéias. Ambos foram eficientes, pois a repetição não faz nenhum juízo de valor. Sempre funciona, pro bem ou pro mal. A propaganda faz o quê? Constrói marcas através de repetições. Sem repetição, não existe propaganda bem sucedida. Por isso quando meus amigos dizem que sou repetitivo, considero isso um elogio e tanto. Quem não gosta de repetir um beijo gostoso? Um sexo bem feito? Um livro ou filme genial? A repetição é muito subestimada por todos. É sempre considerada sinônimo de falta de originalidade, chatice, tédio etc. É sempre confundida com preguiça ou rotulada como “doença comportamental”. Poucos reconhecem, ou têm vergonha de reconhecer, o seu valor insofismável. A repetição, meus caros, é o caminho inevitável pra se chegar ao orgasmo. Por isso, pense bem antes de se intitular um "original". Às vezes até repetir o ano na escola é um bem para o aluno. Einstein que o diga. Portanto, não me envergonho nem um pouco de repetir frases, livros, paixões, pensamentos etc. Estou em ótima e má companhia. Quando um grande escritor repete sempre a mesma fórmula, chamam isso de estilo. Quando um escritor que ainda busca uma luz ao sol tenta fazer isso, chamam de falta de criatividade. Há sempre críticos de plantão (oficiais ou não). Uma vez fiz um teste com um grupo de críticos “não-oficiais”. Mostrei um poema meu e coloquei o nome de Fernando Pessoa embaixo. Ouvi várias vezes o mesmo elogio: “só podia ser dele! Só podia ser dele!”. É claro que depois fiquei rindo sozinho por algumas horas e, confesso, de forma repetitiva e irritante.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Amor Responsável


Com responsabilidade não se pode amar de verdade. Amor responsável é algo muito improvável. E não estou falando de sexo sem camisinha, não é nada disso. Estou falando de amor no sentido pleno da palavra. Ou você ama ou é responsável. As duas coisas ao mesmo tempo é uma impossibilidade. Se você acha que ama com responsabilidade, com certeza deve reavaliar bem seu romance. É muito provável que ele esteja sem sal, sem emoção. O amor precisa que sejamos irresponsáveis como a lua do sol para brilhar. Com "tudo certinho" só se constrói tédio. O tédio é o algoz do tesão. Para combatê-lo, só com muita irresponsabilidade. Se você for do tipo que gosta de tudo nos seus devidos lugares, prepare-se para muito sofrimento. Ou então para viver algo tão emocianante quanto uma partida de bocha. Não tem jeito. Com responsabilidade você pode ser uma ótimo profissional mas nunca um bom amante. O bom amante é naturalmente irresponsável. Seu charme está no inesperado. Ele nunca é previsível. Tem sempre uma carta na manga para surpreender a mulher. Se você acha que estou exagerando, repare naqueles casais amigos que saem com você e não trocam um beijo seguer durante toda a noite. Nem mesmo um carinho, um ligeiro carinho. Não. Estão ali juntos , mas se um estivesse no Rio e o outro em Sidney, daria no mesmo. Não se tocam, não se beijam. Parece que estão apenas "cumprindo tabela". Esse tédio dissimulado ou despercebido tem nome: amor responsável. Ninguém faz nada ou tenta fazer algo de novo. Sei lá¿podiam pegar o carro e passar um final de semana em Penedo, por exemplo. Ou mesmo viajar para Paris. É caro? Claro que é. Mas será que seu amor não merece um pouquinho de ousadia? Vai guardar dinheiro para quê? Para gastar quanto estiver com 90 anos? Não dá. Só sendo irresponsável para construir e manter grandes amores. Ou você nunca reparou que os caras muito certinhos são os mais desinteressantes? São os mais traídos, até. Nenhuma mulher merece viver ao lado de um criatura que apodrece em vida. Repare como os chamados "loucos" são os que vivem mais intensamente e são os mais desejados. Viver ao lado deles é não ter a falsa segurança dos lúcidos. É experimentar sempre e não ter medo de errar e ter que tentar de novo. Com responsabilidade, o amor vai continuar sendo assassinado. Todos os dias, em todos os lugares.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Bastilha Inexpugnável



A chuva caía saudosa e implacável na noite fria do Maracanã. Corpos molhados, poucos para grande surpresa, ocupavam uma pequena parte do lado esquerdo das tribunas, vestidos de vermelho e preto, almas angustiadas e corações sangrando. Em campo, a camisa rubro-negra aberta em arco no espaço. A famosa profecia de Nelson Rodrigues finalmente agora é um fato consumado. A bastilha inexpugnável Rubro-negra ergueu-se, sublime e imponente, diante do furor impotente dos alvi-negros. A Jabulani carioca procurava apaixonada e dócil, os pés do camisa 10 da Gávea. Estava carente e queria ser bem tratada pelo menos uma vez nesse ano de Copa ingrata. Aos pés de Pet jogou-se sem medo e foi feliz por uma noite. “Como sonhei com esse momento de eternidade”-pensava em êxtase, ao beijar com paixão as redes do batido goleiro alvi-negro - A noite fria inundou-se de esperanças e forças inexplicáveis. Os amantes com certeza amaram melhor em todos os cantos da cidade. O grito do ex-geraldino humilhado libertou-se da tristeza profunda, explodiu e calou sozinho toda torcida botafoguense. O plebeu voltou a ser rei. A bastilha inexpugnável foi inaugurada, como previu o grande profeta, “quando o Flamengo mais precisar”. E foi ontem, numa noite chuvosa e fria; assim de surpresa. Quando a grandiosa história do clube mais amado do mundo estava desviando-se do seu destino de grandeza infinita. Quando as crianças, assustadas, pensavam em parar de brincar com seus heróis. Foi na fronteira entre a fé e a decepção, que o urubu-rei voou rasante e resgatou o nosso orgulho. Foi nessa quarta-feira, meus amigos, que a camisa rubro-negra mostrou a sua força inexplicável. A função dos 11 que a vestiram com toda alma e coração, foi secundária. Foram coadjuvantes, com muita honra, do manto-sagrado. Porque todos ouviram a voz poderosa do Deus-Zico ecoar pelo seu templo sagrado. Ouviram a ordem e entregaram-se a ela com um furor titânico. Construíram a Bastilha Inexpugnável em apenas uma noite. Mais de 35 milhões de corações bateram felizes, afastando toda vergonha e tristeza. Rubro-negros que já partiram dessa vida sacudiram os céus com trovões e relâmpagos de curto-circuito. O Flamengo ressuscitou exatamente quando os coveiros da arco-íris, afoitos, com a baba elástica e bovina escorrendo pelo canto da boca, já se preparavam para enterrá-lo. Saíram correndo pela noite fria, assombrados pelo Lázaro rubro-negro. Sim, amigos, foi ontem num Maracanã molhado e frio que a Bastilha Inexpugnável foi inaugurada. Adversários, tremei da cabeça até a alma: o Flamengo, quando bastilha, é imbatível.