terça-feira, 10 de março de 2015

ESTRANHA PAIXÃO


A mulher desceu do ônibus ali na Praça Mauá. Tinha cerca de 28 anos. Loira, cabelos lisos, olhos castanhos escuros e tudo mais que completa um mulher linda. Vestia um vestidinho estampado, estilo verão, bem leve para suportar o calor infernal do Rio. Carregava uma bolsa preta e uma sacola branca. Parecia estar com pressa, pois atravessou a movimentada Avenida Presidente Vargas correndo. Seus passos eram nervosos e ela olhava para trás de vez em quando. Parecia fugir de alguém. O relógio marcava 6 horas da tarde, hora de muito movimento na cidade. Atravessou no meio dos carros. Achou que dava para chegar ao outro lado da rua, mas não viu um táxi cortando pela direita. O choque foi inevitável e a mulher foi lançada longe. O tumulto foi imediato. Vários carros freiaram bruscamente. A mulher caiu 50 metros adiante. Curiosos fizeram o tradicional cerco em volta. A belíssima mulher já agonizava sobre o asfalto cálido do final de tarde, quando um homem de uns 45 anos, calvo e de óculos, agachou-se e levantou a cabeça da vítima suavemente. Esta virou a cabeça para o lado e disse quase num sussurro:
- A bolsa preta...- E nada mais disse.
- Chamem um ambulância!- gritou o homem em desespero.
- Já morreu.- disse uma mulher gorda, que suava muito, olhando com indisfarcável prazer para a mulher caída.
Logo, não se sabe de onde, surgiu o tradicional e macabro plástico preto e duas velas. Não sei dizer quem os trouxe. Nunca ninguém sabe.
- Esperem!- gritou o homem- Não sabemos se ela morreu mesmo. Um médico! Tem algum médico por aqui?
A multidão trocou olhares rápidos. Ninguém se pronunciou. A mulher gorda e patusca voltou a se pronunciar:
- É melhor chamar logo o rabecão. Essa aí já cantou para subir. Recebeu alguns olhares de reprovação. Mas ninguém disse nada.
De repente, do meio do tumulto, surgiu um homem todo vestido de branco. Afastou o sujeito que segurava a mulher com suavidade. Pegou-a pela cabeça e encostou sua boca na dela com avidez.
- Está fazendo respiração boca a boca - Disse alguém.
- Finalmente um médico!- disse o homem que a socorrera, aliviado.
- Não sei pra quê...- grunhiu a mulher gorda, se abanando com o Jornal Meia-Hora.
Só que o homem permaneceu com a boca grudada na da mulher por um longo tempo.
A multidão começou a trocar olhares estranhos.

Isso não parece respiração boca a boca – Disse um garoto
E o homem lá, num louco e desesperado beijo. Um beijo que ia além de uma despedida tradicional. O mal-estar foi crescendo entre os presentes.
- Que tipo de respiração é essa?- voltou a falar a gorda.
O homem continuava lá, beijando apaixonadamente aquele corpo inerte, porém ainda quente.
- Deve ser um método moderno - Disse outro
Foi quando surgiu uma ambulância com aquela sirene plangente. Aquela música de duas notas que pode significar esperança ou desespero. Os médicos abriram caminho com a maca. Viram o homem naquele beijo desesperado.
- O Sr. é médico? Ela tem pulsação? Ainda respira?
O homem não respondeu. Continuou abraçando a mulher e beijando-a com toda paixão contida na infinita dor da perda. Quando as palavras são insuficientes para dizer o quanto está doendo.
Os dois Paramédicos trocaram um olhar resignado e puxaram o homem pelas costas. Ele segurou a mulher com mais força.
- Temos que ajudá-la, amigo. Solte-a por favor!
Ele abraçou-a com mais força. Os médicos fizeram toda força e conseguiram arrancar a mulher dos braços do desesperado. As lágrimas escorriam pela sua face vermelha de paixão e angústia. O corpo da bonita mulher foi colocado na maca e dentro da ambulância. Foi aí que chegou outro homem rompendo a multidão em desespero.
- Márcia! Minha mulher! Meu amor! Oh, não! Meu Deus!
Os paramédicos olharam para ele de forma estranha.
- Quem é o senhor?
- Sou o noivo dela! Ela ainda está viva? Meu Deus! Digam-me se ela ainda respira!!
O homem viu a bolsa preta no chão e sacola branca rasgada com um monte de envelopes espalhados pelo chão.
- Olhem!! Estão aqui! Os convites do nosso casamento... Meu Deus! Me ajudem a juntá-los!
Os médicos trocaram um olhar confuso e buscaram com os olhos o outro homem. Este já afastava-se lentamente da multidão.
- Ela se foi...respondeu o paramédico, colocando as mãos no ombro do noivo.
O homem sentou no chão e começou a chorar desesperado. Um choro sem freio. A multidão acompanhava a cena e nada entendia. O homem que à tinha beijado com tanta intensidade se afastava. A mulher gorda, ainda se abanando com o Meia-Hora, foi com passos rápidos e curiosos na sua direção.
- Ei!! Espere!! Por que você a beijou se o noivo dela é aquele senhor ali? O Senhor é o amante, né? Pode me contar!
O homem voltou-se para ela com um olhar reflexivo, distante...A gorda queria matar sua curiosidade.
- O senhor era um ex-namorado? Ex-marido? Responda! Exijo um explicação!
O sujeito abriu um sorriso que iluminou seu rosto molhado e avermelhado.
- Eu não a conhecia... - respondeu quase num sussurro.
A mulher gorda arregalou os olhos, incrédula.
- O quê??? Então por quê???? Por quê??
Ele tinha um olhar distante, sonhador e perdido. Olhou para a mulher gorda com doçura.
Eu nunca havia beijado uma mulher bonita em toda a minha vida.

Respirou fundo, enxugou as lágrimas e abriu um estranho sorriso. Virou as costas para a multidão e seguiu seu caminho, com passo firme.
A mulher gorda parou de se abanar e ficou ali estática, olhos arregalados. Apoiou-se num carro que estava estacionado. Enquanto isso a ambulância partia com a sirene ligada e a multidão se dispersava. Os carros voltaram a cruzar a movimentada avenida, indiferentes.

AMOR POR UM FIO

AMOR POR UM FIO


A mulher estava no terraço do edifício. Seu vestido de noiva estava rasgado e sujo. Seu rosto brilhava na noite estrelada com a maquiagem borrada pelas lágrimas e pelo suor. Era muito bonita na plenitude dos seus 27 anos. Agora estava ali, no terraço do edifício, semblante distorcido e os seios subindo e descendo com a respiração forte e ansiosa. Lá embaixo via o noivo, também suado e olhando para cima com a vergonha e o desespero saltando pelos olhos. Outros convidados do casamento iam chegando e se aglomerando na calçada em frente ao prédio. 
- Maria Paula!!!! - Gritou o noivo suplicante - Por quê? Por quê? 
A moça chegou até a beira do terraço, subiu no murinho e ficou ali, se equilibrando. O edifício tinha apenas 4 andares, porém cair dali com certeza poderia ser pior do que cair das nuvens. 
- Por quê?? Não sei Marcelo! Só sei que não posso me casar! Não posso! 
Marcelo chutou o meio fio indignado 
- E só agora me diz isso? Você teve 6 anos para pensar! Merda! Isso não está acontecendo! 
Marcelo andava de um lado para o outro raivoso, incrédulo...Os convidados ficaram cochichando no lado oposto da rua. O pai de Maria Paula, quando viu a cena, caiu com as mãos no peito e foi levado para o hospital. Sua mãe chorava com um lencinho estampado sobre o rosto, amparada pelo filho caçula. 
- Exijo uma explicação! 
De repente, vem uma voz do prédio da frente. 
- Maria Paula, não faça nenhuma besteira!! 
Esta olhou para o homem que surgiu na sacada do prédio da frente. 
- Quem é você??? 
- Sou o Maurício!! O cara que você conheceu no Whatsapp!! 
A mulher arregalou os olhos. 
- Maurício!!! Eu...Não vou casar! Por sua causa! 
O noivo lá embaixo ouvia tudo perplexo. Deu um chute no carro estacionado em frente ao prédio da sua noiva. 
- O quê?? Que porra é essa? Você vai me trocar por um nerd da Internet? 
Maria Paula olhou para baixo. 
- Nerd? Ele é um gato! Pelo menos pela foto... 
Disse, tentando ver melhor o homem no outro prédio. 
- Eu te amo, Maria Paula!! Desde a primeira vez que vi você no Whats.. 
- Viu como? - falou o noivo totalmente indignado e incrédulo - Você mandou foto sua para esse sujeito, Maria Paula? 
- É a foto do perfil, Marcelo! Aquela que tiramos em Abrolhos. 
- Maldição!! Aquela de biquíni branco? 
- Exatamente! 
- Merda! Só pode ser sacanagem! Quer me dizer que nunca viu esse cara ao vivo antes??? 
- Não é bem assim...Ele me mandou a foto do whatsapp! 
- Foto? E daí? E se for a foto de outro? Você deu seu Facebook pra ele?
Ele só tem fotos de bichinhos maltratados no Face dele. Não gosta de se expor, né, Maurício?
Maria Paula olhou fixamente para o prédio da frente. Tudo que via era a silhueta de um homem. 
- Era você mesmo naquela foto, né Maurício? 
- Claro! Você acha que eu mandaria uma de outro cara? 
Fez-se um infinito segundo de silêncio. O noivo continuava andando de um lado para outro em desespero. Maurício equilibrava-se na beirinha da cobertura do edifício. 
Cerca de 10 metros separavam um prédio do outro. Maria Paula continuava em cima do murinho do outro, com uma aparente intenção de se jogar. 
- Maria Paula! Deixa dessa loucura e vamos para a igreja! Nunca se abandona um marido no altar! Isso já saiu de moda!
Maria Paula ficou em silêncio. Seu rosto retratava fielmente a dúvida. 
- Não vá, Maria Paula! Lembre-se das madrugadas que ficamos conversando pelo WhatsApp! Dos poemas que fiz para você! 
- O quê? Você recebia poemas deste sujeito?? Aposto que é tudo copiado de outros autores! É fácil te enganar, Maria Paula..Você nunca leu nada! 
- Mentira!! Eu leio revistas e jornais! 
O noivo balançou a cabeça em sinal de desalento. 
- É verdade...Revistas de fofocas e colunas sociais de jornais sensacionalistas. 
- Mentira! Maurício! Não acredite nele! 
- Claro que não, meu amor! Você é mais que um amor virtual! É uma realidade linda! 
Maria Paula nada disse. Tentava ver melhor o homem que gritava do prédio em frente. De vez em quando olhava para baixo e via seu noivo andando de um lado para o outro, chutando carros e meio-fio. Os convidados acompanhavam a tudo com semblantes curiosos e almas vibrantes. 
- Maria Paula! Chega desta porra! Eu vou subir!! 
- Se você entrar neste prédio eu pulo! 
O noivo interrompeu o movimento bruscamente. Passou as mãos sobre a cabeça. Parecia não acreditar no que acontecia. 
- Isso não pode ser real!!! - gritou passando as mãos sobre o rosto. 
O homem do prédio da frente falou com desdém: 
- E não é mesmo! É um amor virtual transcendental! Você não sabe o que é passar horas diante de uma tela se dedicando apenas a uma pessoa. O mundo é só você e ela. Não existe perigo! Tudo pode ser dito com sinceridade e.
- Cala a boca, nerd! Deixa eu falar com a minha noiva! 
- Para de chamar ele de nerd!! O Maurício é um cara muito culto! 
O noivo sorriu com toda ironia possível. 
- É mesmo? Já soube de muita gente que entra nestes aplicativos de namoro com vários livros na mão. Tudo cópia! A Internet é um teatro de atores ocultos. 
Maria Paula ficou pensativa. 
- Você não copiou nada não , né Maurício? 
- Que isso, meu amor?! Pode ver no Google! Eu estudei em Paris; Falo 4 línguas; fui campeão de natação em Los Angeles; malho muito... 
- Queria te ver mais de perto Maurício. 
O noivo chutou de novo o carro. 
- Você acredita nessa merda toda? A Internet é uma ilusão meu amor! Eu sou a realidade! 
- Pois é...Eu não sei se quero viver essa sua realidade de bebida, mentiras, mau humor, traição...Ou você acha que eu esqueci da sua professora de Mandarim? 
O noivo empalideceu, mas logo se recuperou. 
- Aquilo foi um deslize, amor...Você disse que tinha me perdoado, não disse? 
- Disse! 
- Então? 
- Então não sei...Perdoei, mas continuo desconfiando. Não nasceu ainda um homem fiel. 
- Eu sou fiel! Só entrava no WhatsApp para falar com você! Nunca te traí conversando com outra mulher.- Gritou Maurício. 
- Porra, Maria Paula! Deixa esse nerd pra lá e vamos para a igreja! Ou você vai casar dentro de um computador? 
- Suas ironias não podem impedir o nosso amor! Maria Paula me ama! Ela escreveu isso várias vezes enquanto conversávamos no Whats. 
- Cala a boca, seu nerd miserável! Desce aqui se você for homem! 
- Não vou brigar com você! Aposto que é um maldito Hacker! 
- Hacker? Acha que eu perco tempo em aplicativos de bate-papo? Tenho mais o que fazer! 
- É...encher a cara e trair sua mulher com a professora de Mandarim... 
- Isso não vai mais acontecer! Eu te juro Maria Paula! 
Maria Paula escutava a tudo apertando as mãos contra suas feições inseguras. As lágrimas caíam pelo seu rosto e se estatelavam na calçada fria da rua. 
- Maurício! Daqui não dá pra te ver direito! -Gritou para diminuir a angústia.
Maurício olhou em volta e encontrou uma solução. Havia um fio relativamente grosso que ligava um prédio ao outro. 
- O fio! Vou até aí pelo fio! 
- Oh! Você arriscaria a vida por mim? Viu? - disse olhando para baixo- Você é meu noivo há 6 anos e nunca fez iss Marcelo!
- Deixa de ser patética, Maria Paula! Esse cara quer fazer é charme! Ele não vai ter coragem! Não vai ter! Vai atravessar como? Fazendo um download? Hahaha
Maurício olhou para o fio pensativo. Realmente era um risco atravessá-lo. Mas não podia voltar atrás. 
- Eu vou, Maria Paula! Juro que vou! 
- Então vem, meu amor! Vem! 
- Essa eu quero ver! Esse cara vai se esborrachar aqui em baixo! Eu é que não vou socorrê-lo... 
- Viu como você é insensível, Marcelo? É por isso que eu não quero mais casar! 
- Insensível? E você é o quê? Me deixar esperando na igreja! Isso é uma sacanagem! Nunca mais poderei olhar para a cara dos meus amigos! - disse olhando para os convidados- Todo mundo vai dizer: " Lá vai o otário que foi abandonado no altar" e as mulheres vão dizer: "Tadinho, tão bonzinho". Eu não quero ser bonzinho, entendeu? Seria a minha ruína! Todo corno é bonzinho! 
- Tá vendo? Só pensa nesse seu orgulho de macho! Nunca se preocupou com o que eu estava sentindo! 
- A culpa é sua! Você ficava horas e horas com esse celular na mãos e esquecia do mundo!! Merda! Maldito Whatsapp!
- Eu preciso dele para fazer contatos profissionais
- É...Agora sei que tipo de contato você fazia... Traidora! 
- Olha quem fala! A professora de mandarim…. 
- Merda! 
- Maria Paula - interrompeu Maurício - Eu vou até aí! Deixa esse insensível pra lá! 
Os convidados já estavam acomodados encostados em carros; sentados no meio-fio...Ninguém falava nada. O máximo que se escutava eram murmúrios baixinhos e indecifráveis. Um vendedor de biscoitos tentava lucrar alguma coisa vendendo para os convidados. 
Maria Paula olhou para o outro prédio e viu a silhueta de Maurício. Sua curiosidade feminina estava a ponto de explodir. 
- Vem logo Maurício! Você consegue! 
Maurício começou a travessia. Segurou o cabo com as duas mãos e foi indo devagarinho. Todos os convidados prenderam a respiração. O noivo olhou atentamente para o internauta e começou a rir escandalosamente. 
- O cabo vai partir!! Ele é uma bola de gordo!! Hahahahaha!!!! 
Maria Paula ficou aflita. 
- Não é gordo nada! Não é , Maurício? 
- Puf! Puf! - foi tudo que este conseguiu dizer. 
- Maria Paula, tem certeza que este cara te mandou uma foto? Você já teve melhor gosto, querida....hahahahahaha 
- Cala a boca! Ele vai conseguir... 
Maurício estava já no meio do trajeto. 
- Espere! - Maria Paula estava pálida- Maurício, não me disse que era loiro? Na foto você está loiro! 
- Puf! Puf! São...as luzes...Puf!...Enganosas da ...Puf!...Noite! 
- Viu? - falou um noivo triunfante - Aposto que a foto não era dele! 
_ Puf! Puf! Estou chegando... 
Susana forçou a vista embaçada pelas lágrimas e ficou mais branca que o seu vestido. 
-Maurício! Você estava com o corpo definido na foto! Agora estou te achando tão...Tão volumoso... 
- Puf! Puf! É a roupa...Puf! Puf!...Meu amor! 
-Hummm.... 
-Hahahahahahah!!! O cara é uma bola! Viu Maria Paula? Desce logo e vamos para a igreja! Para de palhaçada! 
- Não ! Não vou! - Maria Paula parecia ainda mais insegura, com os olhos fixos em Maurício. 
- Maurício! Você estava mais alto na foto!… 
-Puf! Puf! Estava...Puf! Puf!...De salto...Alto... 
- O quê?????? 
Maurício estava quase chegando. Maria Paula olhou com bastante atenção e quase caiu. 
- Não acredito! Não pode ser! Não ! Não! Você é uma mulher!! Acho... 
- Hein??? - surpreendeu-se o noivo lá de baixo - Que porra é essa? 
- Puf! Puf! E...o que tem...Puf! Puf! Demais? Puf! Puf! O amor é...Puf!... Amplo, independe....puf! Puf! De sexo! 
- Nãoooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!! Maria Paula berrou e balançou o fio com força. 
Maurício despencou com um gemido e estatelou-se na calçada. Todos correram para vê-lo de perto. Era mesmo uma mulher. Agonizava no chão. O noivo aproximou-se perplexo. Olhou para ele e logo voltou seu olhar para Maria Paula enquanto os outros socorriam a vítima. 
- Calma, meu amor!!! Eu te perdôo! Eu te amo! Eu vou até aí! 
Maria Paula nada disse. Parecia em estado de choque. Parada, ali na beira do murinho, quase pulando. 
- Chamem uma ambulância! - gritou alguém 
Vários celulares entraram em ação ao mesmo tempo. Quando o noivo chegou ao murinho, suas feições se transformaram. Maria Paula estava agora no fio, passando para o outro prédio. 
- Amor! Volte aqui! 
A noiva não lhe deu ouvidos. Continuou com as mãos agarradas no fio movimentando-se para o outro prédio. Marcelo não esperou um segundo. Pendurou-se no fio e foi rapidamente até a sua noiva. Alcançou-a no meio do caminho. 
- Amor! Cuidado! Estou aqui para te ajudar, meu amor! 
Maria Paula tomou um susto. Tentou olhar para trás. 
- Me deixe, Marcelo! Eu não mereço o seu amor! Vá amar a sua professora de mandarim!
- Esqueça isso agora. Temos que sair daqui. Além disso... 
Não conseguiu terminar a frase. O fio partiu-se e os dois caíram abraçados no chão. 
- Meu Deus! Gritou um convidado levando as mãos ao rosto. Porém eles deram mais sorte que Maurício, pois caíram em pé. Sorte relativa. Marcelo sofreu fratura exposta numa das pernas e Susana nos dois braços. Logo chegaram 4 ambulâncias. Uma levou Maurício, que estava muito mal. Uma outra, bastante luxuosa e equipada, tinha espaço para dois e colocaram os noivos nela. Ambos gemiam de dor. Quando estavam lá dentro deitados nas macas, Marcelo conseguiu olhar para o lado, preocupado com Maria Paula 
- Não se preocupe amigo - disse um Médico - Ela ficará bem. Dispomos de computadores de última geração aqui e no hospital. Ela só não poderá usar as mãos por um bom tempo... 
- Ótimo! 
- Como ótimo??? 
- Ela não vai poder digitar no celular? 
O Médico franziu o senho. 
- Por um bom tempo, não…Por quê? 
- Por nada! Hahahahaha!!! Por nada!!! Hahahaha 
- Não está sentindo dor, senhor? – perguntou o médico 
- Estou! Tá doendo pra cacete!! Hahahahahahahah..... 


A PRAIA

A Praia estava bem cheia naquela ensolarada manhã de domingo. O mar calmo e com várias tonalidades de verde e azul num colorido indescritível. Havia pouco espaço para se colocar barraca ou mesmo uma simples toalha. Marina deu um jeito e procurou seu espaço entre cadeiras e piscininhas infantis. Gostava de ir à praia sozinha e vestir sempre um biquíni diferente. Trazia uma bolsa de palha com listas vermelhas e amarelas. Pediu licença e estendeu sua canga onde deu. Usava óculos escuros daqueles impenetráveis. Daqueles que arrefecem raios solares e ocultam verdades reveladas pelo olhar. Passou protetor solar. Tinha a pele branca e os cabelos morenos e lisos até a cintura. Seu nariz era arrebitado e seu corpo inimaginável até para Tom e Vinicius. Uma daquelas mulheres que a areia se transforma num palco quando caminha em direção ao mar. Que os olhares ávidos dos homens desnudam e aquecem e secam e outra coisa por aí. Mas naquele momento Marina estava mais preocupada com seu bronzeado. Deitou de frente para o sol e ficou parada como estátua de deusa esperando o retoque final de Apolo. Mas para surpresa até dos vendedores de mate e biscoito Globo, resolveu tirar a parte de cima do biquíni. Se a sua chegada já havia causado um impacto profundo, maior foi quando aqueles seios perfeitos explodiram livres sob o sol de Ipanema. Primeiro fez-se um silêncio daqueles que só o quebrar das ondas e os gritos das crianças brincando indiferentes rompia. Depois um murmurinho abafado e envergonhado de alguns adultos. Foi como se a praia inteira congelasse por 1 segundo. Até que uma senhora de cabelos grisalhos que estava sentada numa cadeira embaixo de uma barraca gritou:
- O que é isso?? - havia na sua voz uma mistura de indignação e espanto.
Várias pessoas olharam para ela. Muitas esperando uma deixa para exporem seus comentários.
- Que pouca vergonha!!! É por isso que esse país está assim... - disse outra mulher raivosa acendendo um cigarro com as mãos trêmulas.
Marina continuou ali deitada, perdida em seus devaneios.
- Olha mãe!! Parece até com aquela que eu vi num site na casa do Jorginho! - Entregou-se um garoto dos seus 13 anos.
- O quê??? - disse a mãe indignada. - Vou falar com seu pai, Gabriel!
Esperto, Gabriel levantou-se e correu para a água.
Que coisa mais anos 80!! – Continuou outra mulher até bem bonita.
Logo a confusão foi crescendo. Marina continuava desligada, escutando música com fones de ouvido no seu celular. Foi quando um senhor se aproximou e disse:
Minha filha, eu não tenho nada contra, mas tem um monte de gente reclamando do que você está fazendo.
Marina olhou em volta e viu os olhares de reprovação. Sorriu para o senhor.
Mas eu não estou incomodando ninguém. Estou aqui, quietinha no meu lugar. E o que tem mostrar os seios? A gente vê isso todo dia. Até parece...
O senhor suspirou e deu de ombros. Pegou uma latinha de cerveja e voltou para a sua barraca. A mulher até certo ponto bonita voltou a falar.
É por isso que o Brasil está assim...Uma pouca vergonha! Se já não bastassem as bundas na TV e na Internet!
É...Um abuso contra as famílias.- disse a senhora de cabelos grisalhos, mais raivosa ainda.
Chamem o salva-vidas! Ele tem que fazer alguma coisa!
Logo o salva-vidas apareceu. Depois de explicada a situação, o homem aproximou-se da moça e disse:
Olha só... todos estão pedindo para você colocar a parte de cima do biquíni. É atentado ao pudor.
Foi aí que várias pessoas se aproximaram e fizeram um cerco em torno da moça. Daqueles que se fazem quando alguém é atropelado e que cresce rapidamente, pois a desgraça alheia é mais emocionante que um filme de Tarantino.
Atentado ao pudor?Eu não vou colocar não. Quem estiver incomodado, que não olhe. - Alguns rapazes aplaudiram. Mas a maioria desejava no mínimo um linchamento. E o que ninguém percebia era que o mar estava agora com grandes ondas, daquelas que aparecem de repente, logo depois que o temido vento sudoeste chega na Cidade Maravilhosa. Um jovem foi surpreendido pela mudança repentina do mar e se debatia em desespero no meio da espuma branca. Mas as atenções estavam todas voltadas para a morena e seus seios esculturais. A discussão pegava fogo enquanto o garoto bebia muita água.
Olhem! - Finalmente alguém gritou - Tem um menino se afogando!
Rapidamente o salva-vidas saiu com dificuldades da multidão e correu para o mar. Uma mulher começou a gritar:
Gabriel! É meu filho Gabriel! Alguém faça alguma coisa!
Calma – O salva-vidas está colocando os pés de pato...Disse outra
Meu filho!
Aquele foi como um grito de despedida. O menino havia desaparecido entre as enormes ondas. Um surfista tentou procura-lo, mas nada achou. A espuma branca do quebrar das ondas parecia um sorriso cínico do mar.
Três salva-vidas mergulharam várias vezes entre as ondas. Um helicóptero do Corpo de Bombeiros quase tocava as ondas.Tudo em vão. O menino desaparecera.
_- Meu filho! Alguém me ajude!!!
Todos olhavam para ela com um profundo pesar. A mulher caiu em prantos. O helicóptero da polícia sobrevoava o local e alguns mergulhadores pularam na água. Após várias tentativas, um deles emergiu com o garoto nos braços.
Meu filho! Meu filho! – Gritava a mulher desesperada.
A rede do helicóptero foi jogada e trouxe o mergulhador e o menino até a praia. A mãe e várias outras pessoas aproximaram-se rapidamente. Foi tentada a respiração boca-a-boca. Mas o garoto não respondeu a nenhum estímulo. Logo uma multidão cercaram aquele jovem corpo inerte. Como se todos quisessem conhecer de perto a face da morte. Mas tudo que viam era um menino desfigurado e uma mãe desesperada.
Vamos leva-lo ao hospital – disse o salva-vidas.
O mergulhador balançou a cabeça e disse:
- Está morto. Sinto muito, senhora...
A mulher desmaiou. Fez-se um silêncio tibetano. Enquanto isso, Marina pegava todas as suas coisas e saía com passos lentos na direção do calçadão. No rosto deslizavam lágrimas que pingavam sobre os seus seios agora cobertos pelo biquíni rosa.

VESTIDO NEGRO




A mulher olhou para o corretor e sorriu antes de dizer:
Adorei! Adorei!
De fato, o apartamento não era de se jogar fora. Tinha 2 quartos e uma sala espaçosa com uma varanda pequena. O corretor sorria plasticamente. Um sorriso já desgastado, porém com toda sinceridade que produz a necessidade.
Hummm….Não sei não… - murmurou o homem que estava com a mulher e que na verdade, parecia ser o seu marido. Um cara alto, moreno, usava um par de óculos que lhe dava um ar de executivo sério. Daqueles que andam pelas ruas da cidade com suas pastas 007 e ar introspectivo. Que falam nos seus celulares com a autoridade de quem está decidindo o futuro da humanidade.
Mas do que você não gostou, amor? – A mulher parecia decepcionada.
O homem adquiriu uma expressão patética. Virou-se para o corretor e disse:
- Não sei! Não sei! Há algo errado aqui. Ainda não sei o que é, mas há.
Os outros olharam para ele pensativos. Olhavam em volta procurando algo. Tentando descobrir o que havia de tão errado com aquele apartamento vazio, porém muito bem cuidado.
Preciso de algum tempo para descobrir. – vira-se para o corretor e diz:
O senhor podia nos deixar um instante a sós? Quem sabe assim não nos decidimos mais rápido?
O homem suspirou mas manteve o sorriso de plástico. Pigarreou.
Claro! Claro! Fiquem à vontade. Vou lá dar uma descida pra pegar um ar e já volto.
Saiu. O casal trocou um olhar e depois levaram as mãos `a boca e caíram na maior gargalhada. Logo a mulher fez um gesto para o homem parar de rir e disse:
Vamos pro quarto? Não tem cama mas isso não é problema, não é?
O homem já estava tirando a calça e falou com uma voz pastosa:
Claro que não. Estou morrendo de tesão.
Meia hora depois os dois ouvem um barulho de chaves e a porta da frente se abrindo. Rapidamente vestiram suas roupas. Quando o corretor chegou na porta do quarto, o homem acabava de abotoar a camisa. Antes que o corretor pudesse falar qualquer coisa, o homem se adiantou:
Muito quente.
O corretor ficou meio surpreso e perguntou:
- Como??
O homem suspirou olhando em volta com uma expressão desolada.
Esse apartamento. Faz muito calor aqui. Estou suando e, confesso, tive vontade de tirar a roupa.
O corretor ficou meio constrangido. Pigarreou.
Bem…Um ar condicionado pode resolver o problema. Mas aqui no Alto da Boa Vista faz frio a noite.
Hummmm….Minha mulher é alérgica. Não pode ficar nem um minuto com esse negócio ligado.
A mulher deu um saltinho entusiasmado.
É verdade, seu Adamastor. O ar condicionado me faz espirrar sem parar. Fico em pânico. Cê nem imagina…
O corretor suspirou.
Bem…A oferta é boa. Pensem nas vantagens.
Vamos pensar…Vamos pensar.
Deu um salto e já estava abrindo a porta.
Qualquer coisa, entramos em contato com o sr., ok?
Desceram pelo elevador `as gargalhadas.

SEGUNDA PARTE.

Depois dessa, Carlos e Heloísa fizeram o mesmo em muitas vezes. Transaram em quase todos os apartamentos que estavam anunciados nos classificados dos jornais. E não importava o bairro: Copacabana,Barra, Tijuca, Ipanema, Vila da Penha,Santa Cruz… Num intervalo entre um golpe e outro, Carlos foi se encontrar com uns amigos do trabalho num pé-sujo do Centro onde contou sua ideia genial:

Não tem erro. Pensem na economia que eu fiz de motel? Rá! Sou um gênio! – falava enquanto bebia um chope gelado.
Mas ninguém desconfiou? – perguntou um amigo, num espanto patético.
Ninguém . Os caras querem tanto vender ou alugar que se esquecem de pensar– Cabou-se Carlos – É claro que não é para qualquer um. É preciso talento. E isso, meus caros, eu tenho de sobra! Só os cínicos conseguem representar com perfeição a sinceridade. Um brinde a isso!!
Levantou o copo brindou com todos os outros.

TERCEIRA PARTE

Vamos Heloísa! Esse apartamento da Vieira Souto é es-pe-ta-cu-lar!
Disse Carlos, animado e impaciente, andando de um lado para o outro. Estavam na Visconde de Pirajá, esquina com Vinícius de Moraes. A mulher olhava deslumbrada para uma vitrine de uma loja de grife.
Espera, Carlos…Olha aquele vestido preto. Eu preciso daquele vestido. Necessito dele como do ar que respiro!
Mais um vestido, Heloísa? Não acredito!
Como mais um??? Esse é O vestido!
Carlos suspirou enquanto olhava em volta, como se alguém fosse aparecer. Na verdade, estava um pouco nervoso. O apartamento que eles iam “correr” dessa vez não era como os outros. Uma verdadeira mansão de 8 quartos e 3 salas de frente para a praia de Ipanema. Além disso, a proprietária era uma socialite famosa. A mesma havia perdido o marido, o encanto pela vida e pelo deslumbrante imóvel. Mas gostava tanto daquele apartamento que resolvera vendê-lo pessoalmente. Não aceitava corretor nenhum. Dizia que só ela saberia dar o valor que a história do lugar merecia. Carlos voltou a falar:
Vamos Heloísa! Prometo que compro um desses pra você quando voltarmos.
A mulher cruzou os braços. Fez cara de triste e falou ansiosa:
Só vou nesse apartamento com aquele vestido! Preciso dele! Ou você acha que com essas roupas que estou usando vou convencer alguém que tenho dinheiro para comprar uma mansão? Acha?
Carlos coçou a cabeça e o peito ao mesmo tempo. Parecia estar sofrendo de uma alergia súbita e fatal.
Está bem! Compra o vestido. Mas vai rápido.
Heloísa entrou esfuziante na loja e 10 minutos depois saía com o deslumbrante vestido preto colado ao seu corpo escultural. Carlos assobiou e ela deu uma voltinha sobre si mesma radiante.
Gostou? – disse com as mãos na cintura e um olhar provocante.
Você está muito gostosa com esse vestido, Helô. Acho que.
A mulher aproximou-se rindo e disse ao pé-do-ouvido do rapaz:
Aguenta só mais um pouquinho, amorzinho.


Quarta Parte

O apartamento era realmente espetacular. A viúva estava na porta para recebê-los com um sorriso pálido.
Boa tarde, senhores. Por aqui, por favor.
Heloísa e Carlos sorriam meio nervosos, mas como já eram experientes no assunto, começaram a representar seus respectivos papéis com um talento de Fernanda Montenegro. A viúva tinha cerca de 50 anos, no máximo, e conservava uma beleza de menina. Seus olhos emanavam um azul sereno. Sua boca carnuda e seus cabelos negros lisos e longos completavam sua beleza triste e sublime. Tudo que é belo carrega a melancolia de um dia morrer.
Vocês foram recomendados pela Carmita de Castro Souza Lima Barbosa Sobrinho? – Perguntou a viúva.
O casal trocou um olhar irônico. Mais uma vez aquela alergia súbita e fatal atacou Carlos. Mesmo assim ele conseguiu dizer entre um pigarro e outro:
Isso! A Carmita…Uma mulher esplêndida.
Sem dúvida! Sem dúvida! Bem…- suspirou a viúva- Vamos começar pelas salas?
Pelas salas? – Falou Heloísa que olhava distraída para os móveis franceses e para tudo que não estava acostumada a ver. Mas o que mais lhe chamava a atenção eram aqueles quadros de Portinari. Para Heloísa era uma contradição ver aquelas figuras de miseráveis em movimento no meio de tão farta riqueza.
Os ricos acham lindo a miséria…dos outros! – Disse sem perceber.
O que foi que você disse? – Perguntou a viúva
Nada…Nada. Estava pensando alto.
Bem…Venham por aqui. Esta é a sala de jantar. Essa mesa pertenceu ao meu bisavô. Ele era holandês e veio para o Brasil no fim do século XIX. A prataria pertenceu ao Rei Eduardo III.
Muito interessante! Muito interessante! – Falou Carlos com um deslumbramento crescente.
De repente o mordomo entra na sala com o telefone nas mãos.
Com licença. Telefone para a senhora.
Quem é, Aderbal?
É o embaixador Coimbra, senhora.
Com licença, senhores. Vou atender e já volto.
A viúva saiu da sala. Carlos e Heloísa trocaram um olhar e começaram a rir.

Que luxo! Isso aqui é um castelo, garota! Aposto que nenhum dos nossos amigos transou num desses.
Com certeza, amor! Com certeza! Espera só a Bia saber dessa!
É verdade…Hehehhehehehe!
Como alguém pode ter tanto dinheiro assim, hein Carlos?
Herança, meu amor…Herança. Ela herdou uma grana preta do pai. Sabe quem era o pai dela? Aquele juiz que roubou milhões do INSS.
Ué? Mas se descobriram que ele roubou, como ela conseguiu ficar com a grana?
Carlos suspirou balançando a cabeça com um sorriso de desdém.
Não seja inocente, Helô. Você não sabe que no Brasil dinheiro herdado, mesmo que roubado, é perdoado?
Heloísa concordou com a cabeça sem nada dizer. Mexia num quadro de Portinari. Estava fascinada com a miséria decorando a riqueza.
Só uma coisa me intriga, Carlos…- Falou, pensativa.
O que é?
Como vamos transar aqui?
Deixa comigo. Sou ou não sou o seu namorado mais criativo?
O homem sorria confiante.
Estão gostando? – disse a viúva entrando de novo na sala.
Maravilhoso! – Falou Heloísa com um olhar deslumbrado – Você deve ter sido muito feliz aqui…
E como…E como…- suspirou a viúva olhando tudo com um olhar repleto de nostalgia – Bem…Mas vocês gostaram? Vão ficar com ele?
O casal trocou um olhar desconcertado. Mas isso durou pouco tempo. Logo Carlos chamou a responsabilidade da resposta para si e disse:
Vamos ver…Preciso telefonar para o meu gerente..advogados…
Fique à vontade.
Carlos tirou o celular do bolso e fez uma ligação. Mantinha um ar introspectivo, como um homem acostumado a fechar grandes negócios.
Santana? Sou eu, Carlos…Preciso que você resgate para mim 8 milhões…De Euros, evidentemente. Certo…Certo…Espero.
Desligou o telefone e olhou para a viúva sério.
Vai me ligar já já.
A viúva suspirou.
Vou para Paris…Desde que fiquei viúva, só me sinto bem em Paris.
Heloísa estava tão fascinada com os quadros de Protinari que acabou mexendo num deles. De repente, um dos quadros caiu da parede e atingiu em cheio o pé esquerdo de Heloísa. Essa soltou um grito rouco e abafado.
Eu falei para você parar de mexer nos quadros, Heloísa! – disse Carlos meio sem graça – Esse quadro deve valer milhões! Será que quebrou?
A viúva se abaixou e pegou suavemente a pernas de Heloísa.
- Oh! Meu Deus! Está doendo muito? Aderbal! Aderbal! Será que precisamos chamar o médico?
Heloísa tentava segurar a dor, mas as lágrimas corriam insistentes pelo seu belo rosto.
Gelo! Gelo é o melhor remédio! – gritou a viúva- Aberbal, traz gelo.
O mordomo demorou 2 minutos e voltou com o saco de gelo. Carlos e a viúva colocaram Heloísa em cima de uma poltrona da sala de estar.
Putz! Como dói! – disse Heloísa se contorcendo quando o gelo encostou no seu pé.
Tadinha – a viúva estava desconcertada – Tenha calma. Aderbal! Chame o Dr. Alencar.
Pois não, madame.
Carlos continuava com aquele quadro de Portinari nas mãos. Examinava-o com todo cuidado, procurando alguma avaria.
Talvez fosse bom comprar uma atadura. – disse a viúva, examinando o pé de Heloísa com delicadeza.
Carlos colocou o quadro de volta na parede e disse:
Eu compro! Vou descer e comprar! Rapidinho! Um minuto!
Saiu correndo em direção à porta. Chegando na rua, saiu em disparada procurando uma farmácia.


Quinta Parte

Carlos demorou meia hora para voltar ao apartamento. Subiu resmungando.
Droga! Nunca pensei que fosse tão difícil comprar uma atadura em Ipanema!
Entrou no apartamento e deu de cara com Aderbal, o mordomo.
Sinto, senhor…Tenho ordens para não deixar o senhor entrar.
Carlos fez uma cara de espanto, assombro ou coisa que o valha.
Como assim? A minha namorada está aí dentro! Ficou maluco?
De repente, Heloísa e a viúva apareceram na sala. A primeira estava com os olhos marejados, um olhar ausente. A viúva olhava para Carlos quase que com pena. Heloísa aproximou-se e disse.
Carlos eu vou ficar aqui nessa casa…Para sempre. – E deu um sorriso para a viúva. Aderbal mantinha os braços barrando a entrada do homem. Carlos não conseguia dizer nada, chegou a esfregar os olhos para tentar acordar daquele pesadelo repentino e surpreendente.
Mas por que, Heloísa, por quê? – foi tudo que conseguiu dizer.
Por quê? Porque fui tocada com suavidade pela primeira vez. Nunca você me deu o carinho que ela me deu.Cansei das suas aventuras. Aliás, ela já sabe que nós não vamos comprar esse apartamento coisíssima nenhuma. E mesmo assim, pediu pra eu ficar. Vamos juntas para Paris.
Carlos estava vermelho. Não sei dizer se de ódio ou vergonha. Aderbal, mantinha-se impassível, como um mordomo de filme B.
Você só pode estar de sacanagem, não é Heloísa?
Nunca falei tão sério em minha vida. Agora sei o que é o amor, Carlos.
Carlos deu um chute na porta.
Porra! Para com essa merda, Heloísa! Vem comigo!
Não vou! Não vou!! Eu descobri o amor! Vou para Paris!
Mas ela é uma mulher, Heloísa! Uma mulher!
E daí? O que importa?
O homem pensou em dizer algo mas não conseguiu encontrar nenhuma palavra com alcance suficiente para reproduzir com fidelidade toda a sua indignação.
Vou ficar aqui Carlos…Obrigado por tudo.
Mas Heloísa…Eu demorei apenas meia hora para comprar a atadura. Você não pode ter mudado tanto em meia hora!!
Heloísa sorriu, e deu as mãos para a viúva.
Eu também pensava assim…Mas agora sei que não existe tempo certo para o amor acontecer.
Putz, Helô! Isso parece papo de novela mexicana!
Pode rir…Mas o amor quando acontece não dá a mínima para o ridículo.
Carlos passou as duas mãos sobre a cabeça.
Puta merda! Isso não está acontecendo comigo! Aliás, cadê o vestido que eu te dei? Por que você está usando essa roupão?
Aderbal! O vestido.
O mordomo pegou uma sacola plástica que estava por perto e entregou nas mãos de Carlos.
E agora Carlos, adeus. Seja feliz. Tomara que você também encontre alguém que te ame de verdade. – Heloísa falou e saiu de cena de mãos dadas com a viúva.
Mas…- Carlos ia falar mas o mordomo o empurrou para fora do apartamento e fechou a porta. O homem ficou parado com o vestido negro na mão diante da porta fechada.