terça-feira, 10 de março de 2015

A PRAIA

A Praia estava bem cheia naquela ensolarada manhã de domingo. O mar calmo e com várias tonalidades de verde e azul num colorido indescritível. Havia pouco espaço para se colocar barraca ou mesmo uma simples toalha. Marina deu um jeito e procurou seu espaço entre cadeiras e piscininhas infantis. Gostava de ir à praia sozinha e vestir sempre um biquíni diferente. Trazia uma bolsa de palha com listas vermelhas e amarelas. Pediu licença e estendeu sua canga onde deu. Usava óculos escuros daqueles impenetráveis. Daqueles que arrefecem raios solares e ocultam verdades reveladas pelo olhar. Passou protetor solar. Tinha a pele branca e os cabelos morenos e lisos até a cintura. Seu nariz era arrebitado e seu corpo inimaginável até para Tom e Vinicius. Uma daquelas mulheres que a areia se transforma num palco quando caminha em direção ao mar. Que os olhares ávidos dos homens desnudam e aquecem e secam e outra coisa por aí. Mas naquele momento Marina estava mais preocupada com seu bronzeado. Deitou de frente para o sol e ficou parada como estátua de deusa esperando o retoque final de Apolo. Mas para surpresa até dos vendedores de mate e biscoito Globo, resolveu tirar a parte de cima do biquíni. Se a sua chegada já havia causado um impacto profundo, maior foi quando aqueles seios perfeitos explodiram livres sob o sol de Ipanema. Primeiro fez-se um silêncio daqueles que só o quebrar das ondas e os gritos das crianças brincando indiferentes rompia. Depois um murmurinho abafado e envergonhado de alguns adultos. Foi como se a praia inteira congelasse por 1 segundo. Até que uma senhora de cabelos grisalhos que estava sentada numa cadeira embaixo de uma barraca gritou:
- O que é isso?? - havia na sua voz uma mistura de indignação e espanto.
Várias pessoas olharam para ela. Muitas esperando uma deixa para exporem seus comentários.
- Que pouca vergonha!!! É por isso que esse país está assim... - disse outra mulher raivosa acendendo um cigarro com as mãos trêmulas.
Marina continuou ali deitada, perdida em seus devaneios.
- Olha mãe!! Parece até com aquela que eu vi num site na casa do Jorginho! - Entregou-se um garoto dos seus 13 anos.
- O quê??? - disse a mãe indignada. - Vou falar com seu pai, Gabriel!
Esperto, Gabriel levantou-se e correu para a água.
Que coisa mais anos 80!! – Continuou outra mulher até bem bonita.
Logo a confusão foi crescendo. Marina continuava desligada, escutando música com fones de ouvido no seu celular. Foi quando um senhor se aproximou e disse:
Minha filha, eu não tenho nada contra, mas tem um monte de gente reclamando do que você está fazendo.
Marina olhou em volta e viu os olhares de reprovação. Sorriu para o senhor.
Mas eu não estou incomodando ninguém. Estou aqui, quietinha no meu lugar. E o que tem mostrar os seios? A gente vê isso todo dia. Até parece...
O senhor suspirou e deu de ombros. Pegou uma latinha de cerveja e voltou para a sua barraca. A mulher até certo ponto bonita voltou a falar.
É por isso que o Brasil está assim...Uma pouca vergonha! Se já não bastassem as bundas na TV e na Internet!
É...Um abuso contra as famílias.- disse a senhora de cabelos grisalhos, mais raivosa ainda.
Chamem o salva-vidas! Ele tem que fazer alguma coisa!
Logo o salva-vidas apareceu. Depois de explicada a situação, o homem aproximou-se da moça e disse:
Olha só... todos estão pedindo para você colocar a parte de cima do biquíni. É atentado ao pudor.
Foi aí que várias pessoas se aproximaram e fizeram um cerco em torno da moça. Daqueles que se fazem quando alguém é atropelado e que cresce rapidamente, pois a desgraça alheia é mais emocionante que um filme de Tarantino.
Atentado ao pudor?Eu não vou colocar não. Quem estiver incomodado, que não olhe. - Alguns rapazes aplaudiram. Mas a maioria desejava no mínimo um linchamento. E o que ninguém percebia era que o mar estava agora com grandes ondas, daquelas que aparecem de repente, logo depois que o temido vento sudoeste chega na Cidade Maravilhosa. Um jovem foi surpreendido pela mudança repentina do mar e se debatia em desespero no meio da espuma branca. Mas as atenções estavam todas voltadas para a morena e seus seios esculturais. A discussão pegava fogo enquanto o garoto bebia muita água.
Olhem! - Finalmente alguém gritou - Tem um menino se afogando!
Rapidamente o salva-vidas saiu com dificuldades da multidão e correu para o mar. Uma mulher começou a gritar:
Gabriel! É meu filho Gabriel! Alguém faça alguma coisa!
Calma – O salva-vidas está colocando os pés de pato...Disse outra
Meu filho!
Aquele foi como um grito de despedida. O menino havia desaparecido entre as enormes ondas. Um surfista tentou procura-lo, mas nada achou. A espuma branca do quebrar das ondas parecia um sorriso cínico do mar.
Três salva-vidas mergulharam várias vezes entre as ondas. Um helicóptero do Corpo de Bombeiros quase tocava as ondas.Tudo em vão. O menino desaparecera.
_- Meu filho! Alguém me ajude!!!
Todos olhavam para ela com um profundo pesar. A mulher caiu em prantos. O helicóptero da polícia sobrevoava o local e alguns mergulhadores pularam na água. Após várias tentativas, um deles emergiu com o garoto nos braços.
Meu filho! Meu filho! – Gritava a mulher desesperada.
A rede do helicóptero foi jogada e trouxe o mergulhador e o menino até a praia. A mãe e várias outras pessoas aproximaram-se rapidamente. Foi tentada a respiração boca-a-boca. Mas o garoto não respondeu a nenhum estímulo. Logo uma multidão cercaram aquele jovem corpo inerte. Como se todos quisessem conhecer de perto a face da morte. Mas tudo que viam era um menino desfigurado e uma mãe desesperada.
Vamos leva-lo ao hospital – disse o salva-vidas.
O mergulhador balançou a cabeça e disse:
- Está morto. Sinto muito, senhora...
A mulher desmaiou. Fez-se um silêncio tibetano. Enquanto isso, Marina pegava todas as suas coisas e saía com passos lentos na direção do calçadão. No rosto deslizavam lágrimas que pingavam sobre os seus seios agora cobertos pelo biquíni rosa.

VESTIDO NEGRO




A mulher olhou para o corretor e sorriu antes de dizer:
Adorei! Adorei!
De fato, o apartamento não era de se jogar fora. Tinha 2 quartos e uma sala espaçosa com uma varanda pequena. O corretor sorria plasticamente. Um sorriso já desgastado, porém com toda sinceridade que produz a necessidade.
Hummm….Não sei não… - murmurou o homem que estava com a mulher e que na verdade, parecia ser o seu marido. Um cara alto, moreno, usava um par de óculos que lhe dava um ar de executivo sério. Daqueles que andam pelas ruas da cidade com suas pastas 007 e ar introspectivo. Que falam nos seus celulares com a autoridade de quem está decidindo o futuro da humanidade.
Mas do que você não gostou, amor? – A mulher parecia decepcionada.
O homem adquiriu uma expressão patética. Virou-se para o corretor e disse:
- Não sei! Não sei! Há algo errado aqui. Ainda não sei o que é, mas há.
Os outros olharam para ele pensativos. Olhavam em volta procurando algo. Tentando descobrir o que havia de tão errado com aquele apartamento vazio, porém muito bem cuidado.
Preciso de algum tempo para descobrir. – vira-se para o corretor e diz:
O senhor podia nos deixar um instante a sós? Quem sabe assim não nos decidimos mais rápido?
O homem suspirou mas manteve o sorriso de plástico. Pigarreou.
Claro! Claro! Fiquem à vontade. Vou lá dar uma descida pra pegar um ar e já volto.
Saiu. O casal trocou um olhar e depois levaram as mãos `a boca e caíram na maior gargalhada. Logo a mulher fez um gesto para o homem parar de rir e disse:
Vamos pro quarto? Não tem cama mas isso não é problema, não é?
O homem já estava tirando a calça e falou com uma voz pastosa:
Claro que não. Estou morrendo de tesão.
Meia hora depois os dois ouvem um barulho de chaves e a porta da frente se abrindo. Rapidamente vestiram suas roupas. Quando o corretor chegou na porta do quarto, o homem acabava de abotoar a camisa. Antes que o corretor pudesse falar qualquer coisa, o homem se adiantou:
Muito quente.
O corretor ficou meio surpreso e perguntou:
- Como??
O homem suspirou olhando em volta com uma expressão desolada.
Esse apartamento. Faz muito calor aqui. Estou suando e, confesso, tive vontade de tirar a roupa.
O corretor ficou meio constrangido. Pigarreou.
Bem…Um ar condicionado pode resolver o problema. Mas aqui no Alto da Boa Vista faz frio a noite.
Hummmm….Minha mulher é alérgica. Não pode ficar nem um minuto com esse negócio ligado.
A mulher deu um saltinho entusiasmado.
É verdade, seu Adamastor. O ar condicionado me faz espirrar sem parar. Fico em pânico. Cê nem imagina…
O corretor suspirou.
Bem…A oferta é boa. Pensem nas vantagens.
Vamos pensar…Vamos pensar.
Deu um salto e já estava abrindo a porta.
Qualquer coisa, entramos em contato com o sr., ok?
Desceram pelo elevador `as gargalhadas.

SEGUNDA PARTE.

Depois dessa, Carlos e Heloísa fizeram o mesmo em muitas vezes. Transaram em quase todos os apartamentos que estavam anunciados nos classificados dos jornais. E não importava o bairro: Copacabana,Barra, Tijuca, Ipanema, Vila da Penha,Santa Cruz… Num intervalo entre um golpe e outro, Carlos foi se encontrar com uns amigos do trabalho num pé-sujo do Centro onde contou sua ideia genial:

Não tem erro. Pensem na economia que eu fiz de motel? Rá! Sou um gênio! – falava enquanto bebia um chope gelado.
Mas ninguém desconfiou? – perguntou um amigo, num espanto patético.
Ninguém . Os caras querem tanto vender ou alugar que se esquecem de pensar– Cabou-se Carlos – É claro que não é para qualquer um. É preciso talento. E isso, meus caros, eu tenho de sobra! Só os cínicos conseguem representar com perfeição a sinceridade. Um brinde a isso!!
Levantou o copo brindou com todos os outros.

TERCEIRA PARTE

Vamos Heloísa! Esse apartamento da Vieira Souto é es-pe-ta-cu-lar!
Disse Carlos, animado e impaciente, andando de um lado para o outro. Estavam na Visconde de Pirajá, esquina com Vinícius de Moraes. A mulher olhava deslumbrada para uma vitrine de uma loja de grife.
Espera, Carlos…Olha aquele vestido preto. Eu preciso daquele vestido. Necessito dele como do ar que respiro!
Mais um vestido, Heloísa? Não acredito!
Como mais um??? Esse é O vestido!
Carlos suspirou enquanto olhava em volta, como se alguém fosse aparecer. Na verdade, estava um pouco nervoso. O apartamento que eles iam “correr” dessa vez não era como os outros. Uma verdadeira mansão de 8 quartos e 3 salas de frente para a praia de Ipanema. Além disso, a proprietária era uma socialite famosa. A mesma havia perdido o marido, o encanto pela vida e pelo deslumbrante imóvel. Mas gostava tanto daquele apartamento que resolvera vendê-lo pessoalmente. Não aceitava corretor nenhum. Dizia que só ela saberia dar o valor que a história do lugar merecia. Carlos voltou a falar:
Vamos Heloísa! Prometo que compro um desses pra você quando voltarmos.
A mulher cruzou os braços. Fez cara de triste e falou ansiosa:
Só vou nesse apartamento com aquele vestido! Preciso dele! Ou você acha que com essas roupas que estou usando vou convencer alguém que tenho dinheiro para comprar uma mansão? Acha?
Carlos coçou a cabeça e o peito ao mesmo tempo. Parecia estar sofrendo de uma alergia súbita e fatal.
Está bem! Compra o vestido. Mas vai rápido.
Heloísa entrou esfuziante na loja e 10 minutos depois saía com o deslumbrante vestido preto colado ao seu corpo escultural. Carlos assobiou e ela deu uma voltinha sobre si mesma radiante.
Gostou? – disse com as mãos na cintura e um olhar provocante.
Você está muito gostosa com esse vestido, Helô. Acho que.
A mulher aproximou-se rindo e disse ao pé-do-ouvido do rapaz:
Aguenta só mais um pouquinho, amorzinho.


Quarta Parte

O apartamento era realmente espetacular. A viúva estava na porta para recebê-los com um sorriso pálido.
Boa tarde, senhores. Por aqui, por favor.
Heloísa e Carlos sorriam meio nervosos, mas como já eram experientes no assunto, começaram a representar seus respectivos papéis com um talento de Fernanda Montenegro. A viúva tinha cerca de 50 anos, no máximo, e conservava uma beleza de menina. Seus olhos emanavam um azul sereno. Sua boca carnuda e seus cabelos negros lisos e longos completavam sua beleza triste e sublime. Tudo que é belo carrega a melancolia de um dia morrer.
Vocês foram recomendados pela Carmita de Castro Souza Lima Barbosa Sobrinho? – Perguntou a viúva.
O casal trocou um olhar irônico. Mais uma vez aquela alergia súbita e fatal atacou Carlos. Mesmo assim ele conseguiu dizer entre um pigarro e outro:
Isso! A Carmita…Uma mulher esplêndida.
Sem dúvida! Sem dúvida! Bem…- suspirou a viúva- Vamos começar pelas salas?
Pelas salas? – Falou Heloísa que olhava distraída para os móveis franceses e para tudo que não estava acostumada a ver. Mas o que mais lhe chamava a atenção eram aqueles quadros de Portinari. Para Heloísa era uma contradição ver aquelas figuras de miseráveis em movimento no meio de tão farta riqueza.
Os ricos acham lindo a miséria…dos outros! – Disse sem perceber.
O que foi que você disse? – Perguntou a viúva
Nada…Nada. Estava pensando alto.
Bem…Venham por aqui. Esta é a sala de jantar. Essa mesa pertenceu ao meu bisavô. Ele era holandês e veio para o Brasil no fim do século XIX. A prataria pertenceu ao Rei Eduardo III.
Muito interessante! Muito interessante! – Falou Carlos com um deslumbramento crescente.
De repente o mordomo entra na sala com o telefone nas mãos.
Com licença. Telefone para a senhora.
Quem é, Aderbal?
É o embaixador Coimbra, senhora.
Com licença, senhores. Vou atender e já volto.
A viúva saiu da sala. Carlos e Heloísa trocaram um olhar e começaram a rir.

Que luxo! Isso aqui é um castelo, garota! Aposto que nenhum dos nossos amigos transou num desses.
Com certeza, amor! Com certeza! Espera só a Bia saber dessa!
É verdade…Hehehhehehehe!
Como alguém pode ter tanto dinheiro assim, hein Carlos?
Herança, meu amor…Herança. Ela herdou uma grana preta do pai. Sabe quem era o pai dela? Aquele juiz que roubou milhões do INSS.
Ué? Mas se descobriram que ele roubou, como ela conseguiu ficar com a grana?
Carlos suspirou balançando a cabeça com um sorriso de desdém.
Não seja inocente, Helô. Você não sabe que no Brasil dinheiro herdado, mesmo que roubado, é perdoado?
Heloísa concordou com a cabeça sem nada dizer. Mexia num quadro de Portinari. Estava fascinada com a miséria decorando a riqueza.
Só uma coisa me intriga, Carlos…- Falou, pensativa.
O que é?
Como vamos transar aqui?
Deixa comigo. Sou ou não sou o seu namorado mais criativo?
O homem sorria confiante.
Estão gostando? – disse a viúva entrando de novo na sala.
Maravilhoso! – Falou Heloísa com um olhar deslumbrado – Você deve ter sido muito feliz aqui…
E como…E como…- suspirou a viúva olhando tudo com um olhar repleto de nostalgia – Bem…Mas vocês gostaram? Vão ficar com ele?
O casal trocou um olhar desconcertado. Mas isso durou pouco tempo. Logo Carlos chamou a responsabilidade da resposta para si e disse:
Vamos ver…Preciso telefonar para o meu gerente..advogados…
Fique à vontade.
Carlos tirou o celular do bolso e fez uma ligação. Mantinha um ar introspectivo, como um homem acostumado a fechar grandes negócios.
Santana? Sou eu, Carlos…Preciso que você resgate para mim 8 milhões…De Euros, evidentemente. Certo…Certo…Espero.
Desligou o telefone e olhou para a viúva sério.
Vai me ligar já já.
A viúva suspirou.
Vou para Paris…Desde que fiquei viúva, só me sinto bem em Paris.
Heloísa estava tão fascinada com os quadros de Protinari que acabou mexendo num deles. De repente, um dos quadros caiu da parede e atingiu em cheio o pé esquerdo de Heloísa. Essa soltou um grito rouco e abafado.
Eu falei para você parar de mexer nos quadros, Heloísa! – disse Carlos meio sem graça – Esse quadro deve valer milhões! Será que quebrou?
A viúva se abaixou e pegou suavemente a pernas de Heloísa.
- Oh! Meu Deus! Está doendo muito? Aderbal! Aderbal! Será que precisamos chamar o médico?
Heloísa tentava segurar a dor, mas as lágrimas corriam insistentes pelo seu belo rosto.
Gelo! Gelo é o melhor remédio! – gritou a viúva- Aberbal, traz gelo.
O mordomo demorou 2 minutos e voltou com o saco de gelo. Carlos e a viúva colocaram Heloísa em cima de uma poltrona da sala de estar.
Putz! Como dói! – disse Heloísa se contorcendo quando o gelo encostou no seu pé.
Tadinha – a viúva estava desconcertada – Tenha calma. Aderbal! Chame o Dr. Alencar.
Pois não, madame.
Carlos continuava com aquele quadro de Portinari nas mãos. Examinava-o com todo cuidado, procurando alguma avaria.
Talvez fosse bom comprar uma atadura. – disse a viúva, examinando o pé de Heloísa com delicadeza.
Carlos colocou o quadro de volta na parede e disse:
Eu compro! Vou descer e comprar! Rapidinho! Um minuto!
Saiu correndo em direção à porta. Chegando na rua, saiu em disparada procurando uma farmácia.


Quinta Parte

Carlos demorou meia hora para voltar ao apartamento. Subiu resmungando.
Droga! Nunca pensei que fosse tão difícil comprar uma atadura em Ipanema!
Entrou no apartamento e deu de cara com Aderbal, o mordomo.
Sinto, senhor…Tenho ordens para não deixar o senhor entrar.
Carlos fez uma cara de espanto, assombro ou coisa que o valha.
Como assim? A minha namorada está aí dentro! Ficou maluco?
De repente, Heloísa e a viúva apareceram na sala. A primeira estava com os olhos marejados, um olhar ausente. A viúva olhava para Carlos quase que com pena. Heloísa aproximou-se e disse.
Carlos eu vou ficar aqui nessa casa…Para sempre. – E deu um sorriso para a viúva. Aderbal mantinha os braços barrando a entrada do homem. Carlos não conseguia dizer nada, chegou a esfregar os olhos para tentar acordar daquele pesadelo repentino e surpreendente.
Mas por que, Heloísa, por quê? – foi tudo que conseguiu dizer.
Por quê? Porque fui tocada com suavidade pela primeira vez. Nunca você me deu o carinho que ela me deu.Cansei das suas aventuras. Aliás, ela já sabe que nós não vamos comprar esse apartamento coisíssima nenhuma. E mesmo assim, pediu pra eu ficar. Vamos juntas para Paris.
Carlos estava vermelho. Não sei dizer se de ódio ou vergonha. Aderbal, mantinha-se impassível, como um mordomo de filme B.
Você só pode estar de sacanagem, não é Heloísa?
Nunca falei tão sério em minha vida. Agora sei o que é o amor, Carlos.
Carlos deu um chute na porta.
Porra! Para com essa merda, Heloísa! Vem comigo!
Não vou! Não vou!! Eu descobri o amor! Vou para Paris!
Mas ela é uma mulher, Heloísa! Uma mulher!
E daí? O que importa?
O homem pensou em dizer algo mas não conseguiu encontrar nenhuma palavra com alcance suficiente para reproduzir com fidelidade toda a sua indignação.
Vou ficar aqui Carlos…Obrigado por tudo.
Mas Heloísa…Eu demorei apenas meia hora para comprar a atadura. Você não pode ter mudado tanto em meia hora!!
Heloísa sorriu, e deu as mãos para a viúva.
Eu também pensava assim…Mas agora sei que não existe tempo certo para o amor acontecer.
Putz, Helô! Isso parece papo de novela mexicana!
Pode rir…Mas o amor quando acontece não dá a mínima para o ridículo.
Carlos passou as duas mãos sobre a cabeça.
Puta merda! Isso não está acontecendo comigo! Aliás, cadê o vestido que eu te dei? Por que você está usando essa roupão?
Aderbal! O vestido.
O mordomo pegou uma sacola plástica que estava por perto e entregou nas mãos de Carlos.
E agora Carlos, adeus. Seja feliz. Tomara que você também encontre alguém que te ame de verdade. – Heloísa falou e saiu de cena de mãos dadas com a viúva.
Mas…- Carlos ia falar mas o mordomo o empurrou para fora do apartamento e fechou a porta. O homem ficou parado com o vestido negro na mão diante da porta fechada.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Quando tiver uma boa ideia, prepare-se pra enfrentar o diabo. Quando tiver uma ideia brilhante, prepare-se para enfrentar o inferno inteiro.

Geralmente, são as pessoas que acreditam em Paraíso que fazem desse mundo um inferno.//////////Quanto mais eu conheço as pessoas, menos vontade eu tenho de ser um cachorro.////////// “Teoria da Conspiração” foi uma expressão criada para desmoralizar aqueles que ousam desmascarar as verdadeiras conspirações.////////// Ao contrário do que muita gente pensa, acho que a hora certa de procurar um terapeuta é quando você estiver feliz demais durante muito tempo.////////// Eu quero viver sem precisar odiar a segunda-feira e amar a sexta.////////// Alguns artistas deviam morrer jovens para não dar tempo de estragarem suas biografias.////////// Desconfio muito dessa indignação seletiva. Se você é a favor que só os políticos do partido que você odeia sejam presos, você é um canalha.////////// A burrice é vira-lata.Burrice puro-sangue é uma impossibilidade. É impressionante como ela vem sempre misturada com a arrogância e teimosia.////////// Já disse: meu único problema com a reencarnação é ter que estudar Química de novo.////////// Se Deus for mesmo um grande criador, já tirou há muito tempo a raça humana do seu portfólio.////////// Você não estuda para tirar dúvidas, mas para acabar com as certezas.////////// Sou repetitivo sim. Poucos reconhecem o valor da repetição. Meus caros, a repetição é o caminho inevitável pra se chegar ao orgasmo.////////// A burrice é o único recurso natural inesgotável do planeta.////////// Lance Armstrong conseguiu vencer um câncer com metástase, mas não conseguiu derrotar a vaidade.////////// Quando vou à piscina e ela está com a água verde, só tomo banho de chuveiro. Aprendi na escola que azul com amarelo dá verde.////////// A história da humaninade é cheia de absurdos e horrores. Se levarmos a sério, acabamos ficando normais como todo mundo.////////// Tem gente que não abre mão dos seus valores. Tem gente que não abre a mão pra porra nenhuma.////////// Eu só acredito nos atormentados e nos iluminados. Tenho muito medo dos assalariados felizes.////////// Nova Iorque é uma das cidades que tem mais ratos no mundo. Vai ver que é por isso que 'Cat's" nunca saiu de lá.////////// O politicamente correto é o refúgio dos medíocres.////////// O MBA é o túmulo da criatividade.////////// A sexta-feira tem o poder de transformar pensadores revolucionários em assalariados felizes.////////// Todo amor não realizado é perfeito.////////// Só acredito em povo escolhido se Deus descer aqui e apontar o dedo.////////// Quase todos que ganham dinheiro tornam-se reacionários por causa do medo de perdê-lo.////////// O fim do mundo é um experiência individual e intransferível.////////// No Brasil, os grandes ladrões perdem os cargos, mas nunca o dinheiro que roubaram./////////// Minha médica disse que eu não preciso beber pra ficar interessante. O problema é que a maioria das pessoas só fica interessante quando eu bebo.////////// A arrogância é a burrice com plumas.////////// A Grécia deu um calote de 160 bilhões de Euros. Viram como eu estava certo? Quem deve muito não precisa pagar.////////// A estupidez virou currículo. E a burrice, oportunidade.////////// Eu não sei se o melhor amigo do homem é o cachorro. Mas o pior inimigo talvez seja a certeza.////////// O domingo só é legal no sábado.////////// Mesmo que exista outra vida é melhor viver essa como se fosse a única.////////// A formiga achar que só existe vida no formigueiro é um erro aceitável. A gente achar que só existe vida na Terra é arrogância ou ignorância.////////// Algumas mulheres só ficariam bonitas se existisse plástica na alma.////////// O preconceito é a burrice com pressa.////////// os ateus, na sua certeza absoluta que Deus não existe, são tão arrogantes quanto os religiosos na sua certeza que Ele existe.////////// Quando um pedido não é atendido, o que os fiéis da Universal do Reino de Deus fazem? Existe um SAC? Ou só mesmo o saque aos fiéis?////////// Só os ateus deviam visitar os cemitérios.////////// Quando tiver uma boa ideia, prepare-se pra enfrentar o diabo. Quando tiver uma ideia brilhante, prepare-se para enfrentar o inferno inteiro//////////

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mulher: Bóia, âncora ou foguete?

Freud, nos seus últimos dias de vida, perguntou quase que patético: “Mulheres, o que elas desejam??”. Morreu sem conseguir responder à pergunta. Outros vieram e tentaram. Sem sucesso. Porém eu, um réles desconhecido escritor tupiniquim cheguei a uma conclusão pretensiosamente definitiva. É claro que não descobri exatamente o que elas desejam, mas sim classificá-las em três tipos distintos para que você não seja surpreendido como o grande Freud. Dividi as mulheres em 3 tipos: a bóia, a âncora e a foguete. Ocasionalmente, podem existir mulheres com duas ou até três dessas características. Algo como foguete-bóia, âncora-bóia etc. Também podem existir, para o nosso desespero, a falsa-foguete, a falsa-bóia e a falsa-âncora. Muito cuidado com a falsa-foguete. É um tipo que você jura que está te levando pra cima, quando, repentinamente, vira em direção ao poço e te leva rapidinho pro fundo, meu caro. Há, em contrapartida, a falsa-âncora. Uma mulher que tem tudo pra te colocar pra baixo, mas te empurra pra cima numa velocidade surpreendente. Esse tipo é raro, mas você deve ficar atento para não fazer julgamentos precipitados e deixar escapar uma mulher dessas. Você deve estar pensando que estou complicando. Calma. Quando o assunto é mulheres é impossível ser exato, não tem como deixar a complexidade de lado. Mas vou tentar ser mais objetivo. A mulher âncora, como o próprio nome diz, é do tipo que afunda. Normalmente muito pesada, esse tipo de mulher te leva para o fundo do mar.. ou pra ser mais claro: para o fundo do poço. Quando falo que é um tipo pesado, não me refiro ao peso física da dita cuja. Existem mulheres magérrimas que são âncoras pesadíssimas. Outras que são consideradas gordinhas que são verdadeiras ferraris voadoras. Muito cuidado nessa hora. Mas o principal é identificar a âncora antes que ela te leve pro fundo. Para isso, sinto muito, mas não há uma fórmula exata. É preciso ficar atendo aos detalhes. Nos detalhes é que a mulher-âncora revela sua essência de chumbo. Normalmente, são mulheres bonitas. Isso é óbvio. Mulher feia não consegue enganar ninguém. Além disso,para reforçar essa tese, merda não afunda. Portanto tudo que posso fazer por você é te avisar: preste atenção nos gestos, na maneira de andar e na sua sogra. Sim, sua mulher nada mais é do que a sua sogra no passado. Ou sua sogra é o futuro da sua mulher. A Influência é muito maior do que você supõe.
Já a Mulher-bóia é um tipo aparentemente tranquilo. Aliás, tranquilo demais…Tão tranquilo que provoca um tédio insuportável. Para ficar mais claro, a mulher bóia está para os homens como o homem “bonzinho” está para as mulheres. Não fede nem cheira. É a encarnação do marasmo. Aí está dito tudo. Então vamos passar logo para o próximo tipo. A mulher foguete. Esse tipo infelizmente é difícil de ser identificado e mais ainda de ser encontrado. São mulheres que possuem muita leveza, pois não carregam o peso do egoísmo, da ambição, do apego aos bens materiais, da vaidade. .. São mulheres que nos fazem flutuar e voar alto. Carregam o peso da realidade com um sorriso irresistível e misterioso. Voam porque sabem amar. São perfeitas aos nossos olhos mesmo quando se acham gordas e sem sal. São tão inteligentes que são capazes de ter baixa auto-estima. Embarcar numa relação com uma mulher dessas é a possibilidade de viajar ao infinito. Mas por favor, nada de cair naqueles engodos de cara-metade e alma gêmea, ok? Eu, por exemplo, não sou cara-metade, sou um cara-inteiro.

domingo, 25 de julho de 2010

Repita Comigo

Nelson Rodrigues dizia que a repetição é a melhor figura de retórica. O mestre achava que todo sujeito inteligente devia ter “no mínimo 5 idéias fixas”. Mas o nosso maior poeta dramático podia dizer o que quisesse. Quer dizer, pode agora através da sua obra eternizada. No seu tempo não houve ninguém mais polêmico e criticado do que Nelson Rodrigues. Um cara que escreveu milhares de contos geniais repetindo o mesmo assunto: a traição. Suas verdades afiadas não perdoavam o coração de uma sociedade hipócrita. Agora eu, esse pobre escritor de uns poucos leitores, insisto em repetir que a repetição é mesmo a alma do grande artista, cientista, arquiteto ou advogado. Só os idiotas conseguem ser inéditos todos os dias. A burrice sempre nos surpreende com coisas novas. Nada mais original do que a ignorância que se aprimora a cada dia. Enquanto “Romeu e Julieta” já foi encenada mais de um milhão de vezes, as peças medíocres ficam pouquíssimo tempo em cartaz, pois logo precisam ser substituídas por outras mais medíocres ainda. O sucesso é repetitivo, o fracasso não. Zico treinava 200 faltas por dia(o que é o treino senão uma repetição?) e por isso batia faltas como ninguém. Rogério Ceni faz o mesmo hoje em dia. Oscar ficava horas e horas arremessando bolas. A fé também é repetitiva, pois rezamos sempre as mesmas orações para um mesmo Deus. O sol nasce todo dia e os dias têm sempre 24 horas. Sei que isso soa repetitivo, mas paciência. O segredo das piores e das melhores coisas do mundo está na repetição. Madre Teresa de Calcutá repetiu boas ações durante toda a sua vida. Hitler usava a repetição para convencer o povo alemão a acreditar nas suas idéias. Ambos foram eficientes, pois a repetição não faz nenhum juízo de valor. Sempre funciona, pro bem ou pro mal. A propaganda faz o quê? Constrói marcas através de repetições. Sem repetição, não existe propaganda bem sucedida. Por isso quando meus amigos dizem que sou repetitivo, considero isso um elogio e tanto. Quem não gosta de repetir um beijo gostoso? Um sexo bem feito? Um livro ou filme genial? A repetição é muito subestimada por todos. É sempre considerada sinônimo de falta de originalidade, chatice, tédio etc. É sempre confundida com preguiça ou rotulada como “doença comportamental”. Poucos reconhecem, ou têm vergonha de reconhecer, o seu valor insofismável. A repetição, meus caros, é o caminho inevitável pra se chegar ao orgasmo. Por isso, pense bem antes de se intitular um "original". Às vezes até repetir o ano na escola é um bem para o aluno. Einstein que o diga. Portanto, não me envergonho nem um pouco de repetir frases, livros, paixões, pensamentos etc. Estou em ótima e má companhia. Quando um grande escritor repete sempre a mesma fórmula, chamam isso de estilo. Quando um escritor que ainda busca uma luz ao sol tenta fazer isso, chamam de falta de criatividade. Há sempre críticos de plantão (oficiais ou não). Uma vez fiz um teste com um grupo de críticos “não-oficiais”. Mostrei um poema meu e coloquei o nome de Fernando Pessoa embaixo. Ouvi várias vezes o mesmo elogio: “só podia ser dele! Só podia ser dele!”. É claro que depois fiquei rindo sozinho por algumas horas e, confesso, de forma repetitiva e irritante.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Amor Responsável


Com responsabilidade não se pode amar de verdade. Amor responsável é algo muito improvável. E não estou falando de sexo sem camisinha, não é nada disso. Estou falando de amor no sentido pleno da palavra. Ou você ama ou é responsável. As duas coisas ao mesmo tempo é uma impossibilidade. Se você acha que ama com responsabilidade, com certeza deve reavaliar bem seu romance. É muito provável que ele esteja sem sal, sem emoção. O amor precisa que sejamos irresponsáveis como a lua do sol para brilhar. Com "tudo certinho" só se constrói tédio. O tédio é o algoz do tesão. Para combatê-lo, só com muita irresponsabilidade. Se você for do tipo que gosta de tudo nos seus devidos lugares, prepare-se para muito sofrimento. Ou então para viver algo tão emocianante quanto uma partida de bocha. Não tem jeito. Com responsabilidade você pode ser uma ótimo profissional mas nunca um bom amante. O bom amante é naturalmente irresponsável. Seu charme está no inesperado. Ele nunca é previsível. Tem sempre uma carta na manga para surpreender a mulher. Se você acha que estou exagerando, repare naqueles casais amigos que saem com você e não trocam um beijo seguer durante toda a noite. Nem mesmo um carinho, um ligeiro carinho. Não. Estão ali juntos , mas se um estivesse no Rio e o outro em Sidney, daria no mesmo. Não se tocam, não se beijam. Parece que estão apenas "cumprindo tabela". Esse tédio dissimulado ou despercebido tem nome: amor responsável. Ninguém faz nada ou tenta fazer algo de novo. Sei lá¿podiam pegar o carro e passar um final de semana em Penedo, por exemplo. Ou mesmo viajar para Paris. É caro? Claro que é. Mas será que seu amor não merece um pouquinho de ousadia? Vai guardar dinheiro para quê? Para gastar quanto estiver com 90 anos? Não dá. Só sendo irresponsável para construir e manter grandes amores. Ou você nunca reparou que os caras muito certinhos são os mais desinteressantes? São os mais traídos, até. Nenhuma mulher merece viver ao lado de um criatura que apodrece em vida. Repare como os chamados "loucos" são os que vivem mais intensamente e são os mais desejados. Viver ao lado deles é não ter a falsa segurança dos lúcidos. É experimentar sempre e não ter medo de errar e ter que tentar de novo. Com responsabilidade, o amor vai continuar sendo assassinado. Todos os dias, em todos os lugares.