terça-feira, 10 de março de 2015

ESTRANHA PAIXÃO


A mulher desceu do ônibus ali na Praça Mauá. Tinha cerca de 28 anos. Loira, cabelos lisos, olhos castanhos escuros e tudo mais que completa um mulher linda. Vestia um vestidinho estampado, estilo verão, bem leve para suportar o calor infernal do Rio. Carregava uma bolsa preta e uma sacola branca. Parecia estar com pressa, pois atravessou a movimentada Avenida Presidente Vargas correndo. Seus passos eram nervosos e ela olhava para trás de vez em quando. Parecia fugir de alguém. O relógio marcava 6 horas da tarde, hora de muito movimento na cidade. Atravessou no meio dos carros. Achou que dava para chegar ao outro lado da rua, mas não viu um táxi cortando pela direita. O choque foi inevitável e a mulher foi lançada longe. O tumulto foi imediato. Vários carros freiaram bruscamente. A mulher caiu 50 metros adiante. Curiosos fizeram o tradicional cerco em volta. A belíssima mulher já agonizava sobre o asfalto cálido do final de tarde, quando um homem de uns 45 anos, calvo e de óculos, agachou-se e levantou a cabeça da vítima suavemente. Esta virou a cabeça para o lado e disse quase num sussurro:
- A bolsa preta...- E nada mais disse.
- Chamem um ambulância!- gritou o homem em desespero.
- Já morreu.- disse uma mulher gorda, que suava muito, olhando com indisfarcável prazer para a mulher caída.
Logo, não se sabe de onde, surgiu o tradicional e macabro plástico preto e duas velas. Não sei dizer quem os trouxe. Nunca ninguém sabe.
- Esperem!- gritou o homem- Não sabemos se ela morreu mesmo. Um médico! Tem algum médico por aqui?
A multidão trocou olhares rápidos. Ninguém se pronunciou. A mulher gorda e patusca voltou a se pronunciar:
- É melhor chamar logo o rabecão. Essa aí já cantou para subir. Recebeu alguns olhares de reprovação. Mas ninguém disse nada.
De repente, do meio do tumulto, surgiu um homem todo vestido de branco. Afastou o sujeito que segurava a mulher com suavidade. Pegou-a pela cabeça e encostou sua boca na dela com avidez.
- Está fazendo respiração boca a boca - Disse alguém.
- Finalmente um médico!- disse o homem que a socorrera, aliviado.
- Não sei pra quê...- grunhiu a mulher gorda, se abanando com o Jornal Meia-Hora.
Só que o homem permaneceu com a boca grudada na da mulher por um longo tempo.
A multidão começou a trocar olhares estranhos.

Isso não parece respiração boca a boca – Disse um garoto
E o homem lá, num louco e desesperado beijo. Um beijo que ia além de uma despedida tradicional. O mal-estar foi crescendo entre os presentes.
- Que tipo de respiração é essa?- voltou a falar a gorda.
O homem continuava lá, beijando apaixonadamente aquele corpo inerte, porém ainda quente.
- Deve ser um método moderno - Disse outro
Foi quando surgiu uma ambulância com aquela sirene plangente. Aquela música de duas notas que pode significar esperança ou desespero. Os médicos abriram caminho com a maca. Viram o homem naquele beijo desesperado.
- O Sr. é médico? Ela tem pulsação? Ainda respira?
O homem não respondeu. Continuou abraçando a mulher e beijando-a com toda paixão contida na infinita dor da perda. Quando as palavras são insuficientes para dizer o quanto está doendo.
Os dois Paramédicos trocaram um olhar resignado e puxaram o homem pelas costas. Ele segurou a mulher com mais força.
- Temos que ajudá-la, amigo. Solte-a por favor!
Ele abraçou-a com mais força. Os médicos fizeram toda força e conseguiram arrancar a mulher dos braços do desesperado. As lágrimas escorriam pela sua face vermelha de paixão e angústia. O corpo da bonita mulher foi colocado na maca e dentro da ambulância. Foi aí que chegou outro homem rompendo a multidão em desespero.
- Márcia! Minha mulher! Meu amor! Oh, não! Meu Deus!
Os paramédicos olharam para ele de forma estranha.
- Quem é o senhor?
- Sou o noivo dela! Ela ainda está viva? Meu Deus! Digam-me se ela ainda respira!!
O homem viu a bolsa preta no chão e sacola branca rasgada com um monte de envelopes espalhados pelo chão.
- Olhem!! Estão aqui! Os convites do nosso casamento... Meu Deus! Me ajudem a juntá-los!
Os médicos trocaram um olhar confuso e buscaram com os olhos o outro homem. Este já afastava-se lentamente da multidão.
- Ela se foi...respondeu o paramédico, colocando as mãos no ombro do noivo.
O homem sentou no chão e começou a chorar desesperado. Um choro sem freio. A multidão acompanhava a cena e nada entendia. O homem que à tinha beijado com tanta intensidade se afastava. A mulher gorda, ainda se abanando com o Meia-Hora, foi com passos rápidos e curiosos na sua direção.
- Ei!! Espere!! Por que você a beijou se o noivo dela é aquele senhor ali? O Senhor é o amante, né? Pode me contar!
O homem voltou-se para ela com um olhar reflexivo, distante...A gorda queria matar sua curiosidade.
- O senhor era um ex-namorado? Ex-marido? Responda! Exijo um explicação!
O sujeito abriu um sorriso que iluminou seu rosto molhado e avermelhado.
- Eu não a conhecia... - respondeu quase num sussurro.
A mulher gorda arregalou os olhos, incrédula.
- O quê??? Então por quê???? Por quê??
Ele tinha um olhar distante, sonhador e perdido. Olhou para a mulher gorda com doçura.
Eu nunca havia beijado uma mulher bonita em toda a minha vida.

Respirou fundo, enxugou as lágrimas e abriu um estranho sorriso. Virou as costas para a multidão e seguiu seu caminho, com passo firme.
A mulher gorda parou de se abanar e ficou ali estática, olhos arregalados. Apoiou-se num carro que estava estacionado. Enquanto isso a ambulância partia com a sirene ligada e a multidão se dispersava. Os carros voltaram a cruzar a movimentada avenida, indiferentes.

Um comentário:

  1. Nas minhas procurar com ajuda do tio Google olhe onde vim parar...

    Obrigada, Google! :)

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