segunda-feira, 30 de março de 2009

Humor branco I

A mulher se arrumou toda. Olhou pela janela e viu a chuva correr pelo vidro como lágrimas incessantes. Olhou para o seu Rolex e ficou ainda mais agitada. O tempo voava impávido. Passou o batom, soltou os cabelos e saiu. Quando chegou na rua, foi atropelada e morreu na hora. fim

Humor Branco II

O cachorro não parava de latir. Todos os dias e todas as noites bastava ouvir qualquer ruído, que o cão latia feito um louco. Tinha pelos negros bonitos e brilhantes. O dono passava escova e secador todos os finais de semana. Um dia um vizinho, muito irritado com os latidos, abriu o portão da casa na calada da noite e jogou um pedaço de carne envenenada pro cachorro. O dog viu a cena e partiu pra cima do vizinho, mordendo-o no pescoço. O homem morreu na hora e o cachorro pouco depois, engasgado com o sangue da carótida do vizinho. O pedaço de carne envenenada apodreceu no meio das flores do jardim. Fim.

Os engajados

Há uns 10 anos fui à uma exposição do Miró no CCBB e achei uma porcaria. Sou um “idiota plástico” como dizia Nelson Rodrigues sobre sua ignorância em matéria de artes plásticas. A minha namorada da época, que estava ao meu lado neste fatídico dia, me deletou na mesma data e local. Só não fui linchado em praça pública porque não havia ninguém nas praças públicas. Era domingo e o Centro do Rio, para quem não sabe, é habitado nesse dia apenas por sonolentos mendigos e pelos raivosos engajados. Talvez você esteja se perguntando: “mas quem são os engajados??”. Vou tentar explicar. Os engajados não têm idade definida. O certo é que freqüentam os teatros (principalmente o Teatro Leblon), cinemas cults e/ou estudaram teatro na CAL. Julgam-se de vanguarda; odeiam o Bush; querem o Tibete livre e a liberação da maconha. Olham para os beijos de pessoas do mesmo sexo e bocejam entediados. Enfim, são liberais em tudo. Mas vai você falar mal de algum dos intocáveis deuses dessa tribo. Sim, eles são politeístas. Têm seus deuses intocáveis como Miró, Glauber Rocha, Guevara etc. etc. Mas o que vocês não sabem (ou talvez saibam...) é que essa tribo possui vários defensores entre os intelectuais da nossa elite artística. Juntos, são como uma grande seita que forma a opinião da grande maioria. Há poucas semanas atrás, quando o “casseta” Madureira disse que achava Glauber Rocha uma merda, a tribo e a elite gritaram mais que as fãs do Wando quando atiram calcinhas no obsceno cantor. Queriam crucificar o “casseta” como os fundamentalistas do islã com aquele cartunista holandês que ousou fazer piada com Maomé. Até o Arnaldo Jabor, coleguinha do Glauber da época do chatíssimo e mal produzido Cinema Novo, deu um ataque em grande estilo literário. Se o Glauber é gênio para muitos, pode ser sim uma besta para alguns. Por que não? Se essa “elite intelectual” acha Guevara mais importante que Cristo, por que um cidadão do mundo das artes não pode achar Glauber uma merda? Eu acho tudo muito chato. Todos muitos chatos também. Eu tenho os meus ídolos. Admiro muito Nelson Rodrigues, Nietzsche, Fernando Pessoa, entre outros. Mas se alguém achar qualquer um deles uma merda, tudo bem. Pelo menos o cara se interessou em conhecer as obras dos caras pra achar uma merda. Mas o que eu queria dizer, e demorei tantas linhas para conseguir, é que tenho uma péssima lembrança do Glauber por outro motivo. Certa vez fui fazer um curso de roteiro para documentário com uma das ex-mulheres do grande cineasta no Parque Laje. Cheguei na hora certinha da primeira aula e me sentei junto com os outros cinco alunos. Na introdução da aula, a distinta viúva pediu que cada um citasse seu documentário preferido. Quando chegou a minha vez, citei dois: A Janela da Alma e Edifício Master. Para meu espanto, a viúva do gênio deu um berro e clamou: “não! Não e não! Edifício Master não! É um horror! Eduardo Coutinho explora a miséria humana para ganhar dinheiro”. Foi mais ou menos isso que ouvi da ex-mulher-viúva do Glauber, acrescido do olhar de reprovação dos meus colegas de sala, que depois fui descobrir que eram os mesmos das outras duas edições do curso. Gostavam tanto que acabavam voltando. É lógico que me senti “excluído” e nunca mais voltei. Morri em 150 pratas! Maldita hora em que fui dizer que tinha gostado de “Edifício Máster”. Mas aqui, nesse blog desconhecido, longe dos olhares da nossa elite intelectual e dos "engajados", posso escrever em alto e bom som (sic): Glauber é uma merdaaaaaaaaaa!

Amor por um Fio

A mulher estava no terraço do edifício. Seu vestido de noiva estava rasgado e sujo. Seu rosto brilhava na noite estrelada com a maquiagem borrada pelas lágrimas e pelo suor. Era muito bonita na plenitude dos seus 27 anos. Agora estava ali, no terraço do edifício, semblante distorcido e os seios subindo e descendo com a respiração forte e ansiosa. Lá embaixo via o noivo, também suado e olhando para cima com a vergonha e o desespero saltando pelos olhos. Outros convidados do casamento iam chegando e se aglomerando na calçada em frente ao prédio. - Susana!!!! - Gritou o noivo suplicante - Por quê? Por quê? A moça chegou até a beira do terraço, subiu no murinho e ficou ali, se equilibrando. O edifício tinha apenas 4 andares, porém cair dali com certeza poderia ser pior do que cair das nuvens. - Por quê?? Não sei Marcelo! Só sei que não posso me casar! Não posso! Marcelo chutou o meio fio indignado - E só agora me diz isso? Você teve 6 anos para pensar! Merda! Isso não está acontecendo! Marcelo andava de um lado para o outro raivoso, incrédulo...Os convidados ficaram cochichando no lado oposto da rua. O pai de Susana, quando viu a cena, caiu com as mãos no peito e foi levado para o hospital. Sua mãe chorava com um lencinho estampado sobre o rosto, amparada pelo filho caçula. - Exijo uma explicação! De repente, vem uma voz do prédio da frente. - Susana, não faça nenhuma besteira!! Susana olhou para o homem que surgiu na sacada do prédio da frente. - Quem é você??? - Sou o Maurício!! O cara que você conheceu na Internet!! A mulher arregalou os olhos. - Maurício!!! Eu...Não vou casar! Por sua causa! O noivo lá embaixo ouvia tudo perplexo. Deu um chute no carro estacionado em frente ao prédio da sua noiva. - O quê?? Que porra é essa? Você vai me trocar por um nerd da Internet? Susana olhou para baixo. - Nerd? Ele é um gato! Pelo menos pela foto... Disse, tentando ver melhor o homem no outro prédio. - Eu te amo, Susana!! Desde a primeira vez que vi você na Internet... - Viu como? - falou o noivo totalmente indignado e incrédulo - Você mandou foto sua para esse sujeito, Susana? - Mandei! Aquela que tiramos em Abrolhos. - Maldição!! Aquela de biquíni branco? - Exatamente! - Merda! Só pode ser sacanagem! Quer me dizer que nunca viu esse cara ao vivo antes??? - Não é bem assim...Ele me mandou uma foto! - Foto? E daí? E se for a foto de outro? Susana olhou fixamente para o prédio da frente. Tudo que via era a silhueta de um homem. - Era você mesmo na foto, né Maurício? - Claro! Você acha que eu mandaria uma de outro cara? Fez-se um infinito segundo de silêncio. O noivo continuava andando de um lado para outro em desespero. Maurício equilibrava-se na beirinha da cobertura do edifício. Cerca de 10 metros separavam um prédio do outro. Susana continuava em cima do murinho do outro, com uma aparente intenção de se jogar. - Susana! Deixa dessa loucura e vamos para a igreja! Nunca se abandona um marido no altar! Susana ficou em silêncio. Seu rosto retratava fielmente a dúvida. - Não vá, Susana! Lembre-se das madrugadas que ficamos conversando na Internet! Dos poemas que fiz para você! - O quê? Você recebia poemas deste sujeito?? Aposto que é tudo copiado de outros autores! É fácil te enganar, Susana...Você nunca leu nada! - Mentira!! Eu leio revistas e jornais! O noivo balançou a cabeça em sinal de desalento. - É verdade...Revistas de fofocas e colunas sociais de jornais sensacionalistas. - Mentira! Maurício! Não acredite nele! - Claro que não, meu amor! Você é mais que um amor virtual! É uma realidade!! Susana nada disse. Tentava ver melhor o homem que gritava do prédio em frente. De vez em quando olhava para baixo e via seu noivo andando de um lado para o outro. Os convidados acompanhavam a tudo com semblantes distorcidos e almas vibrantes. - Susana! Chega desta porra! Eu vou subir!! - Se você entrar neste prédio eu pulo! O noivo interrompeu o movimento bruscamente. Passou as mãos sobre a cabeça. Parecia não acreditar no que acontecia. - Isso não pode ser real!!! - gritou passando as mãos sobre o rosto. O homem do prédio da frente falou com desdém: - E não é mesmo! É um amor virtual! Você não sabe o que é passar horas diante de uma tela se dedicando apenas a uma pessoa. O mundo é só você e ela. Não existe perigo! Tudo pode ser dito com uma sinceridade rodrigueana. - Cala a boca, nerd! Deixa eu falar com a minha noiva! - Pára de chamar ele de nerd!! O Maurício é um cara muito culto! O noivo sorriu com toda ironia possível. - É mesmo? Já soube de muita gente que entra nestes chats da Internet com vários livros na mão. Tudo cópia! A Internet é um teatro de atores ocultos. Susana ficou pensativa. - Você não copiou nada não , né Maurício? - Que isso, meu amor?! Eu estudei em Paris; Falo 4 línguas; fui campeão de natação em Los Angeles; malho muito... - Queria te ver mais de perto Maurício. O noivo chutou de novo o carro. - Você acredita nessa merda toda? A Internet é uma ilusão meu amor! Eu sou a realidade! - Pois é...Eu não sei se quero viver essa sua realidade de bebida, mentiras, mau humor, traição...Ou você acha que eu esqueci da sua secretária? O noivo empalideceu, mas logo se recuperou. - Aquilo foi um deslize, amor...Você disse que tinha me perdoado, não disse? - Disse! - Então? - Então não sei...Perdoei, mas continuo desconfiando. Não nasceu ainda um homem fiel. - Eu sou fiel! Só entrava na Internet para falar com você! Nunca te traí conversando com outra mulher.- Gritou Maurício. - Porra, Susana! Deixa esse cara pra lá e vamos para a igreja! Ou você vai casar dentro de um computador? - Suas ironias não podem impedir o nosso amor! Susana me ama! Ela escreveu isso várias vezes enquanto conversávamos no chat. - Cala a boca, seu nerd miserável! Desce aqui se você for homem! - Não vou brigar com você! Aposto que é um maldito Hacker! - Hacker? Acha que eu perco tempo entrando em bate-bapo de Internet? Tenho mais o que fazer! - É...encher a cara e trair sua mulher, por exemplo... - Isso não vai mais acontecer! Eu te juro Susana! Susana escutava a tudo com a dúvida saltando pelas suas feições inseguras. As lágrimas caíam suicidas pelo seu rosto e se estatelavam na calçada fria da rua. - Maurício! Daqui não dá pra te ver direito! Maurício olhou em volta e encontrou uma solução. Havia um fio relativamente grosso que ligava um prédio ao outro. - O fio! Vou até aí pelo fio! - Oh! Você arriscaria a vida por mim? Viu? - disse olhando para baixo- Você é meu noivo há 6 anos e nunca fez isso... - Deixa de ser patética, Susana! Esse cara quer fazer é charme! Ele não vai ter coragem! Não vai ter! Não tem computador que dê jeito nisso! Maurício olhou para o fio pensativo. Realmente era um risco atravessá-lo. Mas não podia voltar atrás. - Eu vou, Susana! Juro que vou! - Então vem, meu amor! Vem! - Essa eu quero ver! Esse cara vai se esborrachar aqui em baixo! Eu é que não vou socorrê-lo... - Viu como você é insensível? É por isso que eu não quero mais casar! - Insensível? E você é o quê? Me deixar esperando na igreja! Isso é uma sacanagem! Nunca mais poderei olhar para a cara dos meus amigos! - disse olhando para os convidados- Todo mundo vai dizer: " Lá vai o otário que foi abandonado no altar" e as mulheres vão dizer: "Tadinho, tão bonzinho". Eu não quero ser bonzinho, entendeu? Seria a minha ruína! Todo corno é bonzinho! - Tá vendo? Só pensa nesse seu orgulho de macho! Nunca se preocupou com o que eu estava sentindo! - A culpa é sua! Você ficava horas e horas na frente do computador! Merda! Maldito Bill Gates! - Eu preciso dele para fazer pesquisas... - É...Agora sei que tipo de pesquisa fazia... Traidora! - Olha quem fala! A secretária... - Merda! - Susana! - interrompeu Maurício - Eu vou até aí! Deixa esse insensível pra lá! Os convidados já estavam acomodados encostados em carros; sentados no meio-fio...Ninguém falava nada. O máximo que se escutava eram murmúrios baixinhos e indecifráveis. Um vendedor de biscoitos tentava lucrar alguma coisa vendendo para os convidados. Susana olhou para o outro prédio e viu a silhueta de Maurício. Sua curiosidade feminina estava a ponto de explodir. - Vem logo Maurício! Você consegue! Maurício começou a travessia. Segurou o cabo com as duas mãos e foi indo devagarinho. Todos os convidados prenderam a respiração. O noivo olhou atentamente para o internauta e começou a rir escandalosamente. - O cabo vai partir!! Ele é uma bola de gordo!! Hahahahaha!!!! Susana empalideceu. - Não é gordo nada! Não é , Maurício? - Puf! Puf! - foi tudo que este conseguiu dizer. - Susana, tem certeza que este cara te mandou uma foto? Você já teve melhor gosto, querida....hahahahahaha - Cala a boca! Ele vai conseguir... Maurício estava já no meio do trajeto. - Espere! - Susana estava pálida- Maurício, não me disse que era loiro? Na foto você está loiro! - Puf! Puf! São...as luzes...Puf!...Enganosas da ...Puf!...Noite! - Viu? - falou um noivo triunfante - Aposto que a foto não era dele! _ Puf! Puf! Estou chegando... Susana forçou a vista embaçada pelas lágrimas e ficou mais branca que o seu vestido. -Maurício! Você estava com o corpo definido na foto! Agora estou te achando tão...Tão volumoso... - Puf! Puf! É a roupa...Puf! Puf!...Meu amor! -Hummm.... -Hahahahahahah!!! O cara é uma bola! Viu Susana? Desce logo e vamos para a igreja! Pára de palhaçada! - Não ! Não vou! - Susana falou ainda mais insegura, com os olhos fixos em Maurício. - Maurício! Você estava mais alto na fotografia... -Puf! Puf! Estava...Puf! Puf!...De salto...Alto... - O quê?????? Maurício estava quase chegando. Susana olhou com bastante atenção e quase caiu. - Não acredito! Não pode ser! Não ! Não! Você é uma mulher!! Acho... - Hein??? - surpreendeu-se o noivo lá de baixo - Que porra é essa? - Puf! Puf! E...o que tem...Puf! Puf! Demais? Puf! Puf! O amor é...Puf!... Amplo, independe....puf! Puf! De sexo! - Nãoooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!! Susana berrou e balançou o fio com força. Maurício despencou com um gemido e estatelou-se na calçada. Todos correram para vê-lo de perto. Era mesmo uma mulher. Agonizava no chão. O noivo aproximou-se perplexo. Olhou para ele e logo voltou seu olhar para Susana, enquanto os outros socorriam a vítima. - Calma, meu amor!!! Eu te perdôo! Eu te amo! Eu vou até aí! Susana nada disse. Parecia em estado de choque. Parada, ali na beira do murinho, quase pulando. - Chamem uma ambulância! - gritou alguém Vários celulares entraram em ação ao mesmo tempo. Quando o noivo chegou ao murinho, suas feições se transformaram. Susana estava agora no fio, passando para o outro prédio. - Susana! Volte aqui! A noiva não lhe deu ouvidos. Continuou com as mãos agarradas no fio movimentando-se para o outro prédio. Marcelo não esperou um segundo. Pendurou-se no fio e foi rapidamente até a sua noiva. Alcançou-a no meio do caminho. - Susana! Cuidado! Estou aqui para te ajudar, meu amor! Susana tomou um susto. Tentou olhar para trás. - Me deixe, Marcelo! Eu não mereço o seu amor! Vá amar a sua secretária! - Esqueça isso agora. Temos que sair daqui. Além disso... Não conseguiu terminar a frase. O fio partiu-se e os dois caíram abraçados no chão. - Meu Deus! Gritou um convidado levando as mãos ao rosto. Porém eles deram mais sorte que Maurício, pois caíram em pé. Sorte relativa. Marcelo sofreu fratura exposta numa das pernas e Susana nos dois braços. Logo chegaram 4 ambulâncias. Uma levou Maurício, que estava muito mal. Uma outra, bastante luxuosa e equipada, tinha espaço para dois e colocaram os noivos nela. Ambos gemiam de dor. Quando estavam lá dentro deitados nas macas, Marcelo conseguiu olhar para o lado, preocupado com Susana. - Não se preocupe amigo - disse um Médico - Ela ficará bem. Dispomos de computadores de última geração aqui e no hospital. Ela só não poderá usar as mãos por um bom tempo... - Ótimo! - Como ótimo??? - Ela não vai poder digitar num computador? O Médico franziu o senho. - Não…por um bom tempo! Por quê? - Por nada! Hahahahaha!!! Por nada!!! Hahahaha - Não está sentindo dor, senhor? – perguntou o médico - Estou! Tá doendo pra cacete!! Hahahahahahahah.....

Repita Comigo

Nelson Rodrigues dizia que a repetição é a melhor figura de linguagem. O mestre achava que todo sujeito inteligente devia ter “no mínimo 5 idéias fixas”. Mas o nosso maior poeta dramático podia dizer o que quiser. Quer dizer, pode agora através da sua obra eternizada. No seu tempo não houve ninguém mais polêmico e criticado do que Nelson Rodrigues. Um cara que escreveu milhares de contos geniais repetindo o mesmo assunto: a traição. Suas verdades afiadas não perdoavam o coração de uma sociedade hipócrita. Agora eu, esse pobre escritor de uns poucos leitores, insisto em repetir que a repetição é mesmo a alma do grande artista, cientista, arquiteto ou advogado. Só os idiotas conseguem ser inéditos todos os dias. A burrice sempre nos surpreende com coisas novas. Nada mais original do que a ignorância que se aprimora a cada dia. Enquanto “Romeu e Julieta” já foi encenada mais de um milhão de vezes, as peças medíocres ficam pouquíssimo tempo em cartaz, pois logo precisam ser substituídas por outras mais medíocres ainda. O sucesso é repetitivo, o fracasso não. Zico treinava 200 faltas por dia(o que é o treino senão uma repetição?) e por isso batia faltas como ninguém. Rogério Ceni faz o mesmo hoje em dia. Oscar ficava horas e horas arremessando bolas. A fé também é repetitiva, pois rezamos sempre as mesmas orações para um mesmo Deus. O sol nasce todo dia e os dias têm sempre 24 horas. Sei que isso soa repetitivo, mas paciência. O segredo das piores e das melhores coisas do mundo está na repetição. Madre Teresa de Calcutá repetiu boas ações durante toda a sua vida. Hitler usava a repetição para convencer o povo alemão a acreditar nas suas idéias. Ambos foram eficientes, pois a repetição não faz nenhum juízo de valor. Sempre funciona, pro bem ou pro mal. A propaganda faz o que? Constrói marcas através de repetições. Sem repetição, não existe propaganda bem sucedida. Por isso quando meus amigos dizem que sou repetitivo, considero isso um elogio e tanto. Quem não gosta de repetir um beijo gostoso? Um sexo bem feito? Um livro ou filme genial? A repetição é muito subestimada por todos. É sempre considerada sinônimo de falta de originalidade, chatice, tédio etc. É sempre confundida com preguiça ou rotulada como “doença comportamental”. Poucos reconhecem, ou têm vergonha de reconhecer, o seu valor insofismável. A repetição, meus caros, é o caminho inevitável pra se chegar ao orgasmo. Por isso, pense bem antes de se intitular um "original". Às vezes até repetir o ano na escola é um bem para o aluno. Einstein que o diga. Portanto, não me envergonho nem um pouco de repetir frases, livros, paixões, pensamentos etc. Estou em ótima e má companhia. Quando um grande escritor repete sempre a mesma fórmula, chamam isso de estilo. Quando um escritor que ainda busca uma luz ao sol tenta fazer isso, chamam de falta de criatividade. Há sempre críticos de plantão (oficiais ou não). Uma vez fiz um teste com um grupo de críticos “não-oficiais”. Mostrei um poema meu e coloquei o nome de Fernando Pessoa embaixo. Ouvi várias vezes o mesmo elogio: “só podia ser dele! Só podia ser dele!”. É claro que depois fiquei rindo sozinho por algumas horas e, confesso, de forma repetitiva e irritante.

O que é seu tá guardado

Josimar estava aos prantos sentado numa cadeira naquele boteco da Lapa. Tudo por causa de Helena. Não a de Tróia, mas a de Cascadura. A moça acabava de lhe dar um "Pé" após 7 anos de namoro, fora o noivado. Agora estava arrasado e seu amigo Mariovaldo, o popular Valdinho, tentava consolá-lo. - Fui traído, Valdinho, traído! O amigo tentou sorrir. - E daí? Até Cristo foi traído, meu velho. - Mas como vou passar lá no bairro sem que riam de mim? Todo mundo sabe!Sou um corno! - Calma aí, meu velho! Esse negócio de ser corno já tá ultrapassado. - Sério? - Claro! Ser corno é até cool. O negócio hoje em dia é aparecer. - Fala sério! Eu quero é sumir! - Calma, Josi! Deixa comigo! - Ajudar como? Você conhece algum cirurgião plástico que cobre pouco? Eu posso mudar de rosto e. - Nada disso! Você vai ficar famoso! Vai sair na "Caras-de-pau" e tudo! - É? Como o "corno do ano", né? Tô fora! - Esqueça esse orgulho de macho latino! Pense nas vantagens... - Quais são as vantagens de ser corno, Valdinho? Tá de sacanagem? - Muitas vantagens! Muitas! Pensa, ô mané! Você vai ficar famoso e rico! O brasileiro adora a vítima. Todo aquele que faz papel de vítima no Brasil ganha a simpatia imediata da população. - Tá maluco, Valdinho? Quer que eu seja corno e ainda me faça de coitado? Vou te quebrar a cara! - Deixa de ser burro, Josimar! Pensa! Olha esses programas de TV! Todo aquele que faz papel de vítima ganha a simpatia do povo. O negócio e ser traído! O povo ama os traídos que se fazem de coitadinhos! - Tá...e você acha que eu sendo um corno rico e famoso vou trazer a Helena de volta? - Lógico! Não só a Helena mas todas aquelas loiras gostosas que aparecem na TV e saem nas revistas! Pensa, meu velho, pensa! O povo ama sentir pena da dor alheia! - Não sei, Valdinho...Famoso e rico tudo bem...Mas corno? Porra! - Você quer o quê? Ficar rico e famoso sem dar nada em troca? - Quero! Esse cara que ganhou 1 milhão no programa? Por acaso ele escreveu "Romeu e Julieta" ou "Crime e Castigo"? - Eu sei, meu velho, mas você acha que você inteligente e criativo do jeito que é vai ser escolhido para ir num programa desses? Te enxerga, cara! Com esse teu QI alto e esse talento você está perdido! - Droga! Que mal eu fiz pra merecer tantos dons, meu Deus? - Calma! Há piores! Há piores! Ou você pensa que os escritores, poetas, cineastas, cronistas têm alguma chance? São os excluídos! Gente que insiste em pensar e criar! Jamais terão uma chance na mídia. Sinto uma pena enorme desses coitados genias. Leonardo da Vinci, se vivo fosse, estaria naquela fila gigante da prova para Gari. - Putz! E se descobrirem que eu fiz aquele curso de filosofia?? - Calma! Ninguém precisa saber! A gente diz que você é apenas um traído. Um cara que nasceu pobre e nunca teve nenhuma chance na vida. A burrice vende! A burrice vende! - Hummm...Será que esse negócio de ser corno ainda vende? Acho que já caiu no lugar-comum. - Aí é que está! Você precisa parecer o "corno-burro". Assim toda a massa gigantesca de idiotas será solidária. - Talvez...Mas eles não assumem que são cornos! Não sei não... - Não sabe o quê? O que você quer mais além de fama, dinheiro e mulheres? - A Helena. Eu amo a Helena! - Calma. A Helena vai vir correndo pro seus braços. Lembre-se: o que é seu tá guardado!

Eu sou assim, mas é sem querer

A vida parece ser uma eterna briga entre o que você é e o que os outros desejam que você seja. Sei que esse assunto parece esgotado, mas aí que está. Quando ninguém quer mais falar sobre algo amplamente discutido é hora de trazer a discussão de volta. Não pretendo me ater à filosofia, pois com certeza a minha cabe num copo de geléia do boteco da esquina. O que me fez refletir sobre o desejo da maioria que você não fuja do lugar-comum foi meu aniversário de 40 anos. Falam da crise dos quarenta, mas juro que não senti nada de tão especial assim. Porém confesso que minha emoção foi às nuvens ao ver as homenagens criadas pela minha "Poeta-Maior", minha mãe. E os textos maravilhosos da minha querida madrinha e dos meus irmãos. Eu, que adoro frases de efeito, fiquei durante muitas horas sob o efeito daquelas palavras tão lindas e inesquecíveis. Aquela frase babaca que aparece no final de cada fita de vídeo "A vida é feita de momentos, o vídeo as eterniza" me soou naquele momento como uma verdade profunda e inapelável. Tudo bem, não era sobre o meu aniverário que eu queria falar. Na verdade, ainda estou emocionado com o talento da minha mãe e a sabedoria do meu "Filósofo-Maior", meu pai. Eles estão prestes a completar 50 anos de casados, o que, convenhamos, é um verdadeiro milagre nesses dias de tantas solidões sozinhas ou acompanhadas. Falo dos meus pais, porque eles contrariam o que penso sobre a vida a dois. Falo deles, porque quem os conhece sabe que parecem um casal de adolescentes apaixonados. Eu, melhor que todos os meus irmãos neste ponto, porque saí de casa para morar sozinho aos 38 anos de idade, sou testemunha de um amor que precisaria de um Shakespeare-Apaixonado para reproduzi-lo. Como estou longe de sê-lo, prefiro dizer apenas que não conheço outro igual. Quando eu tinha 15, 17 anos, queria encontrar e viver um amor assim. Mas com o passar dos anos, a vida foi me mostrando outros caminhos, inclusive o meu. O que quero dizer e precisei de todas essas linhas acima para conseguir é que não acho que a vida a dois seja uma lei inquestionável. Não sei se o casal é a melhor forma de relacionamento. Talvez seja para muitos, mas ainda não sei se é para mim. Se cheguei aos 40 sem ter me casado ou tido filhos, não quer dizer que eu seja um egoísta ou que esteja tentando ser diferente ou que seja viado. O engraçado é que o ser humano tem a vocação pela discriminação. Seja religiosa, política, racial, sexual,futebolística, nacionalista etc. etc. Assim como o cara que nasce em Nova Iorque discrimina o que nasce no Sudão, o seu vizinho da cobertura discrima você. Vivemos nos achando melhores ou, às vezes, sentindo pena de quem é muito mais feliz do que os nossos valores enferrujados imaginam. Por isso, não discrimino quem quer viver de maneira diferente da minha. Se o cara quer casar e ter 15 filhos, ótimo. Está garantida a preservação da espécie. Mas não aceito que me digam o que devo fazer pra tentar ser feliz. Entendo a minha mãe e respeito toda educação católica que ela teve e a criação que era para o casamento. Além disso, aceito com ternura o anseio que ela tem de me ver bem, o que significa casado e com filhos. Mas confesso que é difícil explicar que sou feliz do meu jeito. Como explicar para todas as pessoas que nunca chegaram aos 40 anos solteiras e sem filhos que isso pode ser maravilhoso? Eu não fico perguntando o porquê deles terem casado cedo. Então por que devo fazer o que eles querem? Muitos já estão separados e brigam na justiça onde os amores de antanho ganham páginas e páginas de ódios cheios de razão. Mas nada disso tem a ver com a maneira que eu vivo. Não escolhi meu estilo de vida, ele aconteceu. Não existe causa ou ideal. A vida vai me levando, como dizem os poetas. Amei algumas mulheres intensamente. Aliás, conheci mulheres de todos os tipos. Teria me casado com algumas delas. Mas as que eu mais quis, não me quiseram. Pelo menos quando eu as quis. Só quiseram depois que perderam o tempo. O que posso fazer? Devo me casar para deixar o mundinho a minha volta feliz? Gente, não tenho nenhuma importância. Juro que o fato de eu ser ou não ser solteiro não vai fazer os juros caírem nem aumentar o efeito estufa. A árvore aqui da esquina da minha rua não vai ficar com menos ou mais folhas por minha causa. A oportunidade de poder estar aqui com tanta gente interessante e amiga é o que me importa. Esqueçam como eu vivo, mas não se esqueçam de mim.